Agora, em Soteropólis, só se fala sobre o aumento da violência. Uma histeria dos seiscentos diabos.
A Parteira da História
J f, 2007Agora, em Soteropólis, só se fala sobre o aumento da violência. Uma histeria dos seiscentos diabos.
CADA UM ESCREVE (SOBRE E) DO MODO QUE GOSTA
J f, 2005Sempre impliquei com dicionaristas – estes meninos criados com vó que, por falta do que fazer, ficam catalogando e aprisionando palavras. Sei que minha imperícia com o vernáculo é causada por diversos outros fatores, mas se escrevo tanto em português errado é por absoluta ausência de consulta ao “Pai dos Burros”.
(Se bem que o maior Erro de Português, conforme destacou Oswald de Andrade, foi chegar debaixo daquela bruta chuva e vestir o índio. Se fosse manhã de sol, o forasteiro não cometeria o equívoco. Ocorreria o inverso. Agora, porém, já é inútil chorar sobre as vestes dos nativos impostas pelos colonizadores).
Tá, cambada, este não é exatamente um assunto empolgante para iniciar a semana. Tanto sei disso que ia começar escrevendo sobre tema muito mais gostoso: buceta. Os dicionaristas entraram na ciranda por obra e graça do recém-contratado revisor do Ingresia. O novato estrilou quando leu a palavra mágica, e não foi exatamente por questão de ordem moral: “Na última edição do Aurélio Século XXI – o Dicionário da Língua Portuguesa – não existe buceta com u. O grande lexicógrafo só reconhece como sinônimo de vulva, e mesmo assim destacando ser expressão chula, a palavra boceta“, vociferou o cidadão, com ar de superioridade.
Mas, que caralho é este? Perguntei, respondendo. E acrescentei: Quem só sabe grafar boceta com ó realmente não tem devoção à causa.
Mas, enfim, como disse no título, que tomei emprestado de minha amiga Sora: cada um escreve (sobre e) do modo que gosta. E há quem admire boceta desta forma insossa, como Aurélio Buarque, que, confirmando minha tese, foi realmente um menino amarelo criado com vó, um parmalat, assim como todos os outros dicionaristas. Mas, deixemos os mortos em paz.
Cá, no Ingresia, a despeito do neófito revisor, continuarei a escrever buceta, linda assim, conforme a gostosa língua errada do povo, língua certa do povo, da qual falava Bandeira.
Exercício de fixação
J f, 2008Ingresia agora é AQUI, Ó
Não conseguiu? Então tente assim
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De nada.
O diabo sabia das coisas
J f, 2008Há exatos 70 anos, um dia, nove horas, 43 minutos e 28 segundos, o Sertão perdia um de seus ícones mais significativos e sanguinários. Os fuzis da volante do tenente João Bezerra, que abateram Lampião e suas inseparáveis alpercatas, transformaram o 28 de julho numa longa noite que nunca termina.
O quê? Como assim? Calma, minha senhora. Não precisa mudar de emissora. Que agonia da porra!
Tá certo. Sei que ninguém aguenta mais esta ladainha. Nem mesmo este violento locutor, que foi criado nas mitologias sertânicas, suporta mais ouvir sobre esta específica peleja. Nem sobre aqueloutra, dicotômica, que de um lado coloca Virgulino como herói e revolucionário e de outro no papel de bandoleiro, vilão e carrasco cruel.
Recorro a esta singela efeméride (recebam uma efeméride, cangaceiros desalmados) por causa de um insondável mistério envolvendo outro mito, o Diabo Louro, El Corisco. Eis a questão que me atormenta per secula seculorum : Mesmo depois que o grupo de Lampião foi exterminado e o cangaço estava no crepúsculo, por que diabos o menino Cristino Gomes da Silva Cleto não se entregou?
Para tentar responder a tão árida questão, percorri os mais tortuosos caminhos. Consultei meu infalível lunário perpétuo e os não menos infalíveis búzios e runas, fui aos almanaques, livros, tratados, entrevistei macacos da volante na aprazível cidade de Piranhas, em Alagoas – e nada.
Para se ter uma idéia das estradas das perdições que frequentei, acabei pesquisando até mesmo nos arquivos do Vespertino da Tancredo Neves. E não é que, contrariando a sábia sentença do Barão de Itararé (de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo), finalmente achei a resposta. Estava no placar da Sudebs. Ou melhor, na página 10, da edição de 23 de maio de 1940 de A Tarde. Vejam.
Além de valente, Corisco era um sábio. Ele sabia que era muito melhor enfrentar os fuzis e a maldade de Zé Rufino do que contrariar uma mulher. Touché.
P.S Abaixo, fiquem com a deliciosa história contada pelo escritor alagoano Fernando Soares Campos, “o cão do segundo livro”, relatada no La Insignia de 23 de dezembro de 2006.
Recebam.
“Agora eu vou contar o que aconteceu no dia em que Dadá foi entregar o filho Sílvio aos cuidados do Padre Bulhões.
Uma das histórias que não contaram
(Acredite se puder)
Santana do Ipanema, 1930 e uns trocados. A cidade está encravada no meio de um grupo de serras, entre elas o Alto do Cruzeiro, onde os cangaceiros costumavam acampar, mas não se arriscavam a entrar no centro urbano, que sediava um batalhão da Polícia Militar, instalado exatamente com o objetivo de combater os guerrilheiros do cangaço. Os cangaceiros chegaram pela madrugada, e, quando o dia amanheceu, Corisco e Lampião, em cima de um lajeiro, avistaram, lá embaixo, o Padre Bulhões acompanhando, de binóculo, a movimentação do bando.
Corisco:
- Se o Padre Bulhões fizé isso no Rio de Janeiro, vai tomá um tiro de AR-15. Ele só espia a gente desse jeito porque sabe que nóis é de paz!
Lampião:
- Será que num tem nenhuma velhinha aposentada filmando nóis?
- Que nada, cumpade! Isso só vai acontecê daqui a uns setenta ano!
- Cumpade, eu tenho a maior vontade de entrar na igreja de Sant’Ana – Lampião se benze.
Maria Bonita, que estava escutando a conversa sem ser notada, apresentou-se e falou animada:
- Aí, a gente aproveitava e se casava, né, Vivi?
Lampião protestou:
- Paraí, Mulé! Tu tá querendo dizer casar, casar mesmo!, de verdade!, com as benção do Padre Bulhões?!
- E apois!
- Tu num tá nem besta!
- Por quê?!
- Quem casa na igreja do Padre Bulhões num descasa nunca!
- E tu tá querendo casar pra depois descasar?!
- Não! Eu tou querendo não casar, que é pra depois num ter que descasar!
- Oxe! Num entendi nada!
- Além disso, tu já casou uma vez, e só vai ser permitido divorço no Brasil daqui a uns quarenta anos.
- Cumade – atalhou Corisco -, acho que entendi. O cumpade Virgulino tá querendo dizê que, enquanto se tá amigado, a mulher bajula o homi, fica toda se derretendo: é meu fio pra cá, meu fio pra lá… Essas coisa. Mas quando vê a aliança no dedo, aí a coisa muda, ela qué mandá na casa, regulá a vida do marido…
- Oxe! E eu sou lá mulher de botar cabresto em homi?!
- Tou só me prevenindo – explicou Lampião.
- Mas Vivi…
- Pare de me chamar de Vivi! Num fica bem… Os homens já tão me olhando meio atravessado… Tu sabe que meu nome é Virgulino Ferreira da Silva, mais pode me chamar de Capitão.
- É isso mermo, cumpade, num dá moleza pra mulher nããão! – alertou Corisco.
Dadá se aproxima soltando fogo:
- Ô, Corisco!!!
- Sim, minha fulô!
- Tu já trocou os pano de Silvio?!
- Desculpa, Dadá, desculpa, eu me esqueci!
- Então vai logo, homi, avia! A gente vai ter que entregar o menino ao Padre Bulhões ainda hoje. Avia! Avia! Aproveita e lava a louça do café.
Corisco pede licença aos compadres e sai apressado.
Dadá fala pra Maria Bonita:
- É assim mesmo, comadre, a gente num pode dá moleza pra esses marmanjo não!
Maria Bonita olha pra Lampião, segura ele pelo lenço do pescoço e diz:
- Vem cá, seu cabra da peste! Vumbora ali pra detrás daquela capoeira!
Os dois no maior amor por detrás da capoeira. No meio do vuco-vuco, Maria Bonita murmura:
- Viviii!
E Lampião assente:
- Aqui pode!, aqui pode! Mas num me chama assim na frente dos homem não, minha fulô!
Se entrega, Corisco!!!
Eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão…
Hoje eu só me entrego pra Dadá
Dona do meu coração”.
Nova campanha do Ingresia: Free, Daniel, Free!
J f, 2008
Ao saber das relações entre Daniel e o Itinga, Heráclito Mendes segurou o queixo para não cair FOTO: Agência Brasil
Quando o ministro Heráclito Fortes (ou seria Gilmar Mendes?)…Bom, agora, como diria Didi Mocó Sonrisal, “fiquei cafuso”. Aliás, o que assusta e assombra nesta chibança dantesca é como estes dois personagens estão cada vez mais parecidos. É o mesmo jeito de andar, de falar, a mesma boca mole, a papada, a língua e a retórica enroladas, enfim, tudo igualzinho. Segundo um amigo, este problema facial é conseqüência de tanta babação do mesmo e financeiro ovo. Não sei. E pouco importa se o focinho de um é a cara outro ou vice-versa.
O fato é que, independentemente de ter sido Heráclito Mendes ou Gilmar Fortes o autor da obra, a concessão do habeas corpus para Daniel Dantas não me desagradou por completo. É óbvio que todo banqueiro, pela folha corrida, já deveria de imediato pegar seis meses de xilindró. Porém, há casos em que se pode abrir exceção. E o do referido é um deles.
Calma, ético e impaciente ouvinte, sei que o ex-presidiário em questão realizou tenebrosas e nefastas transações de diversas ordens que devem ser condenadas. Porém, ao contrário dos outros banqueiros nacionais e, quiçá, internacionais, ele tem um atenuante. Já praticou ao menos uma boa ação. Qual seja. No final da década de 90, o Opportunity (o nome de um banco é o seu destino) fechou um contrato de exploração com o Itinga Futebol Clube, levando a referida agremiação para o seu devido lugar: os subsolos dos porões do futebol brasileiro. (Mais informações nesta matéria de Claudio Leal, no Terra Magazine). Só por este nobre ato, merecia o habeas corpus.
Em 2006, porém, esta parceiragem (royalties para Marcelo Tiririca) foi desfeita e o finado voltou a respirar. Hoje, creiam, já ocupa a inacreditável e honrosa (para uma agremiação ordinária) 13ª colocação na Segundona. É por isso que os homens de bem da Bahia não podem permitir esta escalada. Vai que, daqui a pouco, eles, ao invés de retornar ao seu devido lugar, terminar este campeonato na décima colocação. É um acinte. Inaceitável.
Urge, portanto, que o dantesco banqueiro esteja em liberdade e volte a comandar os destinos do Itinga rumo à Série D, de Dantas. Eles se merecem. Os dois têm vocação para o delito e devem continuar juntos. Afinal, sempre agiram como se o mundo fosse movido apenas por bolas - sejam elas para corromper os juízes nos tribunais ou nas quatro linhas .
Bahia & Daniel Dantas: o que o roubo uniu ninguém pode separar.
A classe operária não vai mais ao Paraíso
J f, 2008Talvez por ser de lá do sertão, lá do semi-árido, lá do interior, do mato, da caatinga…talvez. Talvez não. E pouco importa, pois a verdade que salva e liberta é uma só: motéis são recintos insuportáveis. Amor de plástico; movimentos determinados pelo tic-tac do relógio; tesão com hora marcada, insípido, inodoro.
Cristão ortodoxo, guio-me pelos ensinamentos religiosos que condenam, sem dó nem piedade, estes templos da perdição. Deu na Bíblia. Mateus 19, versículos 23 e 24 e Lucas 18,18: “É mais fácil aquecer o coração de um banqueiro do que esquentar o desejo daqueles que freqüentam os motéis”.
Palavras da Salvação.
No entanto, hoje em dia ninguém mais respeita o Livro Sagrado. Assim, penso que deveria existir uma cláusula pétrea na Tábua da Lei do Jogo do Bicho punindo severamente quem se atrevesse a ir de encontro aos evangelhos destes sábios apóstolos.
Mas, quá! Nesta Bahia, sem governo nem oposição, até o antigo e respeitado “vale o que está escrito” anda tão desmoralizado quanto as homilias de Padre Sadoc.
Porém, antes que os incréus acusem-me de fundamentalista, informo que cabe exceção até mesmo nos mais dogmáticos pressupostos bíblicos. Eis o endereço da salvação: Rua Democrata, 45. Ali, no fim de linha do glorioso 2 de Julho, sempre suspendi meu ódio aos inóspitos ambientes. Bastava chegar ao Motel Paraíso para esquecer as maldições de Lucas e Mateus.
(É vero que o Casarão, com aquela indecente (de tão linda) vista para a Baia de Todos os Santos, não surgiu como um motel, mas sim abrigando a Boate Clock – lar, doce lar da boêmia de antanho. Porém, não sou palhaço das perdidas ilusões, nem vou ficar chorando nostalgias que não vivi).
Voltando.
Dizia que aquele era o único recinto onde eu sublimava a minha ira santa contra os motéis. Gostava tanto, mas tanto, que muitas vezes fui lá e não aconteceu nada. (Oh, minha comadre, não pense isso de mim. Igual a Ziraldo, nunca broxei. Não acontecia nada apenas porque eu ia sozinho, vigiar o tempo e beber). O lugar era tão especial que, glórias aos céus, nunca foi indicado pelos jurados da Veja em qualquer categoria.
Pois muito bem. Saibam que a colocação dos verbos no passado não é por causa de meu habitual desprezo para com a língua portuguesa. É mais grave. O referido motel fechou. Uns filhadaputa de uns estranjas, soube que italianos, compraram o Casarão.
E a classe operária não vai mais ao Paraíso pernoitar por 12 contos, com direito a lua furando o zinco e refletindo no mar.
Pena. É mais uma parte de cidade que (e na qual) eu deixo de amar.
P.S Porém, meu Motel Paraíso, saiba que, assim como na bela canção de Luedy e Antônio José, interpretada por Jussara Silveira, ainda “posso sonhar com você. Ou nem precisa ?“.
Risério, tenha dó de minha coluna cervical
J f, 2008Sei que este espaço não deveria ser destinado às confissões, mas hoje, em edição extraordinária, abro uma exceção. E conto um pouco sobre minha vida.
Seguinte.
Em meados da década de 90, sofri um grave acidente que quase me deixou paraplégico. O plantão foi rigoroso, sopa de tamanco. Porém, ao contrário de muitas pessoas que nestas ocasiões procuram culpados, confesso: tudo aconteceu por causa de minha incurável teimosia.
Alguns amigos já haviam me alertado de que era preciso ter muito cuidado para me aventurar nas, digamos assim, obras de Antonio Risério. Mas, teimoso, não dei ouvidos à bondade alheia – e resolvi atravessar um livro do referido (Textos e Tribos) sem tomar as devidas precauções. Não deu outra. Sai tropeçando nas infindáveis citações. Em uma página eu me livrava de Malinowski, Otto Jespersen, Edward Sapir, Abraham Moles e, já na seguinte, tinha que driblar Lévy-Bruhl, Saussure, Ernest Haeckel, Lévi-Strauss, Kristeva, Hölderin, Wilhelm Schlegel, Durkheim, Maurice Leroy, Derrida, Sílvio Romero… Pronto, quando ele meteu Sílvio Romero neste bolo acabei entortando minha coluna cervical.
Agora, passados 15 anos, e depois de ter escapado de algumas balas e de muitos vícios, quase morro de susto.
Seguinte.
A Bahia e uma banda de Sergipe são testemunhas de que tentei manter uma distância razoável do escritor, filósofo, compositor, poeta, antropólogo e veranista de São Tomé de Paripe. Mas, não sei se para penitenciar-me por ter ido ao Barradão ontem à noite, decidi novamente encarar outro texto do referido publicado no Terra Magazine. Às aspas.
“Aquário é ou deveria ser, pura e simplesmente, reservatório de água. E piscina vem de “piscis” – peixe, em latim. Piscina é viveiro de peixes. Ou seja: o que chamamos de aquário seria, na verdade, uma piscina – e o que chamamos de piscina é certamente um aquário. Como se explica isso? A poesia talvez ajude. Em sua composição “Baby”, obra-prima da poemúsica brasileira, Caetano canta: “você precisa saber da piscina, de Amaralina, da gasolina…”. Concluo então, facilmente, que, entre a piscina e a praia de Amaralina, o poeta desejou que a gata em questão se resolvesse a ser uma sereia. Para se deixar levar pelo seu canto. O que quer a gasolina no cenário? Sei lá. Talvez ela esteja ali porque, na época, o poeta morava em São Paulo. Paulista é quem sabe desse negócio de carro, gasolina e trânsito”.
AMARALINA, risério? Que porra minha querida, amada, idolatrada, salve, salve Amaralina tá fazendo aí? Esta era a indagação que todos faziam aqui no Bar de Caveira, no Alto da Alegria, nesta véspera de feriado.
Afinal, todos os bebuns aqui sabem que na referida canção, a Vedete de Santo Amaro botou margarina e Carolina e outras inas, mas, Amaralina, não.
Pois bem.
Depois de muitos debates, concluímos que o rapaz, que traz a contradição no próprio sobrenome (Ri Sério), continua um expert em citações, distribuindo-as à mancheia. Não importa se, para isso, tenha que trocar Margarina e Carolina por Amaralina.
AI, MEU COLUNA CERVICAL!
