A Parteira da História

J f, 2007
Na quinta-feira de cinzas, prostrado em uma budega na heróica Chapada Diamantina, uma vez mais eu buscava o impossível: curar a ressaca que me persegue por ancestrais folias.
Investido de minha fantasia de testemunha ocular da história, que os maledicentes apelidam apenas de “abadá de entrão”, escutava o proprietário do recinto bradar contra a violência deste último Carnaval de Salvador – festa que, soube em seguida, ele não passou nem perto.
E foi então que me lembrei de Millôr Fernandes e Raimundo Varela, não necessariamente nesta ordem.
Flash Back. Corta para o meio-dia de terça-feira de Carnaval.
Com o juízo aperreado por substâncias não permitidas pela Constituição Federal e por outras drogas ainda mais fortes, como as canções de Durval Lelys e os textos de Taço Franco, liguei a TV para ver e ouvir as análises abalizadas do impoluto apresentador da TV Record, que gritava, babava e batia na mesa: “Este é o Carnaval mais violento da história”.
Como sei que um pouco de matemática comparada e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, fui aos números. Até aquele instante do “Carnaval mais violento da história”, registrava-se dois mortos no circuito momesco. Com o falecimento de Deise Ramos Santos, no último domingo, dia 4, o saldo oficial subiu para três.
Pois muito bem. No pacífico Carnaval de 1974, quando ACM era governador (Não tem jeito. É um carma. Tenho que falar do homem de alguma forma), morreram 12 pessoas, quatro vezes mais que o deste 2007, conforme registra o jornal A Tarde de 27 de fevereiro daquele ano. Isso sem contar que a população atual é o dobro daquela época. De acordo com o IBGE, a previsão para o início de 2007 era de 2.714.018. Em 1974, com sabemos, não houve censo, mas dá para ter uma idéia, analisando os censos de 1970 (1.007.195) e 1980 (1.502.013).
No entanto, segundo Varela e o dono do butequim da Chapada Diamantina, Carnaval violento foi este, não aquele ou aqueles outros.
E é aí que entra Millôr Fernandes: “Opinião pública é aquela que se publica”.
Agora, em Soteropólis, só se fala sobre o aumento da violência. Uma histeria dos seiscentos diabos.
E hoje não vai nada no Jornal A Tarde? Vai, sim senhor.
O Vespertino, definitivamente, não toma jeito. Na chamada de primeira página fala da “escalada” da violência e na manchete da página 4 diz o seguinte: “Salvador está abalada com 216 homicídios em 2 meses”.
Sem dúvida, é muita morte em tão pouco tempo. O problema é que os números não indicam “escalada” nenhuma. Ao contrário. No mesmo período do ano passado, conforme dados publicados no mesmo jornal, ocorreram 240 homicídios, o que representa uma redução de exatamente 10%.
Moral da história: esqueçam o que eu disse ontem. A Tarde acredita que jornalismo é ciência exata, ma non troppo.
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CADA UM ESCREVE (SOBRE E) DO MODO QUE GOSTA

J f, 2005

Sempre impliquei com dicionaristas – estes meninos criados com vó que, por falta do que fazer, ficam catalogando e aprisionando palavras. Sei que minha imperícia com o vernáculo é causada por diversos outros fatores, mas se escrevo tanto em português errado é por absoluta ausência de consulta ao “Pai dos Burros”.

(Se bem que o maior Erro de Português, conforme destacou Oswald de Andrade, foi chegar debaixo daquela bruta chuva e vestir o índio. Se fosse manhã de sol, o forasteiro não cometeria o equívoco. Ocorreria o inverso. Agora, porém, já é inútil chorar sobre as vestes dos nativos impostas pelos colonizadores).

Tá, cambada, este não é exatamente um assunto empolgante para iniciar a semana. Tanto sei disso que ia começar escrevendo sobre tema muito mais gostoso: buceta. Os dicionaristas entraram na ciranda por obra e graça do recém-contratado revisor do Ingresia. O novato estrilou quando leu a palavra mágica, e não foi exatamente por questão de ordem moral: “Na última edição do Aurélio Século XXI – o Dicionário da Língua Portuguesa – não existe buceta com u. O grande lexicógrafo só reconhece como sinônimo de vulva, e mesmo assim destacando ser expressão chula, a palavra boceta“, vociferou o cidadão, com ar de superioridade.

Mas, que caralho é este? Perguntei, respondendo. E acrescentei: Quem só sabe grafar boceta com ó realmente não tem devoção à causa.

Mas, enfim, como disse no título, que tomei emprestado de minha amiga Sora: cada um escreve (sobre e) do modo que gosta. E há quem admire boceta desta forma insossa, como Aurélio Buarque, que, confirmando minha tese, foi realmente um menino amarelo criado com vó, um parmalat, assim como todos os outros dicionaristas. Mas, deixemos os mortos em paz.

Cá, no Ingresia, a despeito do neófito revisor, continuarei a escrever buceta, linda assim, conforme a gostosa língua errada do povo, língua certa do povo, da qual falava Bandeira.

O diabo sabia das coisas

J f, 2008

Há exatos 70 anos, um dia, nove horas, 43 minutos e 28 segundos, o Sertão perdia um de seus ícones mais significativos e sanguinários. Os fuzis da volante do tenente João Bezerra, que abateram Lampião e suas inseparáveis alpercatas, transformaram o 28 de julho numa longa noite que nunca termina.

O quê? Como assim? Calma, minha senhora. Não precisa mudar de emissora. Que agonia da porra!

Tá certo. Sei que ninguém aguenta mais esta ladainha. Nem mesmo este violento locutor, que foi criado nas mitologias sertânicas, suporta mais ouvir sobre esta específica peleja. Nem sobre aqueloutra, dicotômica, que de um lado coloca Virgulino como herói e revolucionário e de outro no papel de bandoleiro, vilão e carrasco cruel.

Recorro a esta singela efeméride (recebam uma efeméride, cangaceiros desalmados) por causa de um insondável mistério envolvendo outro mito, o Diabo Louro, El Corisco. Eis a questão que me atormenta per secula seculorum : Mesmo depois que o grupo de Lampião foi exterminado e o cangaço estava no crepúsculo, por que diabos o menino Cristino Gomes da Silva Cleto não se entregou?

Para tentar responder a tão árida questão, percorri os mais tortuosos caminhos. Consultei meu infalível lunário perpétuo e os não menos infalíveis búzios e runas, fui aos almanaques, livros, tratados, entrevistei macacos da volante na aprazível cidade de Piranhas, em Alagoas – e nada.

Para se ter uma idéia das estradas das perdições que frequentei, acabei pesquisando até mesmo nos arquivos do Vespertino da Tancredo Neves. E não é que, contrariando a sábia sentença do Barão de Itararé (de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo), finalmente achei a resposta. Estava no placar da Sudebs. Ou melhor, na página 10, da edição de 23 de maio de 1940 de A Tarde. Vejam.

Além de valente, Corisco era um sábio. Ele sabia que era muito melhor enfrentar os fuzis e a maldade de Zé Rufino do que contrariar uma mulher. Touché.

 

P.S Abaixo, fiquem com a deliciosa história contada pelo escritor alagoano Fernando Soares Campos, “o cão do segundo livro”, relatada no La Insignia de 23 de dezembro de 2006.

Recebam.

“Agora eu vou contar o que aconteceu no dia em que Dadá foi entregar o filho Sílvio aos cuidados do Padre Bulhões.

Uma das histórias que não contaram

(Acredite se puder)

Santana do Ipanema, 1930 e uns trocados. A cidade está encravada no meio de um grupo de serras, entre elas o Alto do Cruzeiro, onde os cangaceiros costumavam acampar, mas não se arriscavam a entrar no centro urbano, que sediava um batalhão da Polícia Militar, instalado exatamente com o objetivo de combater os guerrilheiros do cangaço. Os cangaceiros chegaram pela madrugada, e, quando o dia amanheceu, Corisco e Lampião, em cima de um lajeiro, avistaram, lá embaixo, o Padre Bulhões acompanhando, de binóculo, a movimentação do bando.

Corisco:

– Se o Padre Bulhões fizé isso no Rio de Janeiro, vai tomá um tiro de AR-15. Ele só espia a gente desse jeito porque sabe que nóis é de paz!

Lampião:

– Será que num tem nenhuma velhinha aposentada filmando nóis?

– Que nada, cumpade! Isso só vai acontecê daqui a uns setenta ano!

– Cumpade, eu tenho a maior vontade de entrar na igreja de Sant’Ana – Lampião se benze.

Maria Bonita, que estava escutando a conversa sem ser notada, apresentou-se e falou animada:

– Aí, a gente aproveitava e se casava, né, Vivi?

Lampião protestou:

– Paraí, Mulé! Tu tá querendo dizer casar, casar mesmo!, de verdade!, com as benção do Padre Bulhões?!

– E apois!

– Tu num tá nem besta!

– Por quê?!

– Quem casa na igreja do Padre Bulhões num descasa nunca!

– E tu tá querendo casar pra depois descasar?!

– Não! Eu tou querendo não casar, que é pra depois num ter que descasar!

– Oxe! Num entendi nada!

– Além disso, tu já casou uma vez, e só vai ser permitido divorço no Brasil daqui a uns quarenta anos.

– Cumade – atalhou Corisco -, acho que entendi. O cumpade Virgulino tá querendo dizê que, enquanto se tá amigado, a mulher bajula o homi, fica toda se derretendo: é meu fio pra cá, meu fio pra lá… Essas coisa. Mas quando vê a aliança no dedo, aí a coisa muda, ela qué mandá na casa, regulá a vida do marido…

– Oxe! E eu sou lá mulher de botar cabresto em homi?!

– Tou só me prevenindo – explicou Lampião.

– Mas Vivi…

– Pare de me chamar de Vivi! Num fica bem… Os homens já tão me olhando meio atravessado… Tu sabe que meu nome é Virgulino Ferreira da Silva, mais pode me chamar de Capitão.

– É isso mermo, cumpade, num dá moleza pra mulher nããão! – alertou Corisco.

Dadá se aproxima soltando fogo:

– Ô, Corisco!!!

– Sim, minha fulô!

– Tu já trocou os pano de Silvio?!

– Desculpa, Dadá, desculpa, eu me esqueci!

– Então vai logo, homi, avia! A gente vai ter que entregar o menino ao Padre Bulhões ainda hoje. Avia! Avia! Aproveita e lava a louça do café.

Corisco pede licença aos compadres e sai apressado.

Dadá fala pra Maria Bonita:

– É assim mesmo, comadre, a gente num pode dá moleza pra esses marmanjo não!

Maria Bonita olha pra Lampião, segura ele pelo lenço do pescoço e diz:

– Vem cá, seu cabra da peste! Vumbora ali pra detrás daquela capoeira!

Os dois no maior amor por detrás da capoeira. No meio do vuco-vuco, Maria Bonita murmura:

– Viviii!

E Lampião assente:

– Aqui pode!, aqui pode! Mas num me chama assim na frente dos homem não, minha fulô!

Se entrega, Corisco!!!

Eu não me entrego não

Não me entrego ao tenente

Não me entrego ao capitão

Eu me entrego só na morte

De parabelo na mão…

Hoje eu só me entrego pra Dadá

Dona do meu coração”.

A classe operária não vai mais ao Paraíso

J f, 2008

Talvez por ser de lá do sertão, lá do semi-árido, lá do interior, do mato, da caatinga…talvez. Talvez não. E pouco importa, pois a verdade que salva e liberta é uma só: motéis são recintos insuportáveis. Amor de plástico; movimentos determinados pelo tic-tac do relógio; tesão com hora marcada, insípido, inodoro.

Cristão ortodoxo, guio-me pelos ensinamentos religiosos que condenam, sem dó nem piedade, estes templos da perdição. Deu na Bíblia. Mateus 19, versículos 23 e 24 e Lucas 18,18: “É mais fácil aquecer o coração de um banqueiro do que esquentar o desejo daqueles que freqüentam os motéis”.

Palavras da Salvação.

No entanto, hoje em dia ninguém mais respeita o Livro Sagrado. Assim, penso que deveria existir uma cláusula pétrea na Tábua da Lei do Jogo do Bicho punindo severamente quem se atrevesse a ir de encontro aos evangelhos destes sábios apóstolos.

Mas, quá! Nesta Bahia, sem governo nem oposição, até o antigo e respeitado “vale o que está escrito” anda tão desmoralizado quanto as homilias de Padre Sadoc.

Porém, antes que os incréus acusem-me de fundamentalista, informo que cabe exceção até mesmo nos mais dogmáticos pressupostos bíblicos. Eis o endereço da salvação: Rua Democrata, 45. Ali, no fim de linha do glorioso 2 de Julho, sempre suspendi meu ódio aos inóspitos ambientes. Bastava chegar ao Motel Paraíso para esquecer as maldições de Lucas e Mateus.

(É vero que o Casarão, com aquela indecente (de tão linda) vista para a Baia de Todos os Santos, não surgiu como um motel, mas sim abrigando a Boate Clock – lar, doce lar da boêmia de antanho. Porém, não sou palhaço das perdidas ilusões, nem vou ficar chorando nostalgias que não vivi).

Voltando.

Dizia que aquele era o único recinto onde eu sublimava a minha ira santa contra os motéis. Gostava tanto, mas tanto, que muitas vezes fui lá e não aconteceu nada. (Oh, minha comadre, não pense isso de mim. Igual a Ziraldo, nunca broxei. Não acontecia nada apenas porque eu ia sozinho, vigiar o tempo e beber). O lugar era tão especial que, glórias aos céus, nunca foi indicado pelos jurados da Veja em qualquer categoria.

Pois muito bem. Saibam que a colocação dos verbos no passado não é por causa de meu habitual  desprezo para com a língua portuguesa. É mais grave. O referido motel fechou. Uns filhadaputa de uns estranjas, soube que italianos, compraram o Casarão.

E a classe operária não vai mais ao Paraíso pernoitar por 12 contos, com direito a lua furando o zinco e refletindo no mar.

Pena. É mais uma parte de cidade que (e na qual) eu deixo de amar.

P.S Porém, meu Motel Paraíso, saiba que, assim como na bela canção de Luedy e Antônio José, interpretada por Jussara Silveira, ainda “posso sonhar com você. Ou nem precisa ?“.

Risério, tenha dó de minha coluna cervical

J f, 2008

Sei que este espaço não deveria ser destinado às confissões, mas hoje, em edição extraordinária, abro uma exceção. E conto um pouco sobre minha vida.

Seguinte.

Em meados da década de 90, sofri um grave acidente que quase me deixou paraplégico. O plantão foi rigoroso, sopa de tamanco. Porém, ao contrário de muitas pessoas que nestas ocasiões procuram culpados, confesso: tudo aconteceu por causa de minha incurável teimosia.

Alguns amigos já haviam me alertado de que era preciso ter muito cuidado para me aventurar nas, digamos assim, obras de Antonio Risério. Mas, teimoso, não dei ouvidos à bondade alheia – e resolvi atravessar um livro do referido (Textos e Tribos) sem tomar as devidas precauções. Não deu outra. Sai tropeçando nas infindáveis citações. Em uma página eu me livrava de Malinowski, Otto Jespersen, Edward Sapir, Abraham Moles e, já na seguinte, tinha que driblar Lévy-Bruhl, Saussure, Ernest Haeckel, Lévi-Strauss, Kristeva, Hölderin, Wilhelm Schlegel, Durkheim, Maurice Leroy, Derrida, Sílvio Romero… Pronto, quando ele meteu Sílvio Romero neste bolo acabei entortando minha coluna cervical.

Agora, passados 15 anos, e depois de ter escapado de algumas balas e de muitos vícios, quase morro de susto.

Seguinte.

A Bahia e uma banda de Sergipe são testemunhas de que tentei manter uma distância razoável do escritor, filósofo, compositor, poeta, antropólogo e veranista de São Tomé de Paripe. Mas, não sei se para penitenciar-me por ter ido ao Barradão ontem à noite, decidi novamente encarar outro texto do referido publicado no Terra Magazine. Às aspas.

Aquário é ou deveria ser, pura e simplesmente, reservatório de água. E piscina vem de “piscis” – peixe, em latim. Piscina é viveiro de peixes. Ou seja: o que chamamos de aquário seria, na verdade, uma piscina – e o que chamamos de piscina é certamente um aquário. Como se explica isso? A poesia talvez ajude. Em sua composição “Baby”, obra-prima da poemúsica brasileira, Caetano canta: “você precisa saber da piscina, de Amaralina, da gasolina…”. Concluo então, facilmente, que, entre a piscina e a praia de Amaralina, o poeta desejou que a gata em questão se resolvesse a ser uma sereia. Para se deixar levar pelo seu canto. O que quer a gasolina no cenário? Sei lá. Talvez ela esteja ali porque, na época, o poeta morava em São Paulo. Paulista é quem sabe desse negócio de carro, gasolina e trânsito”.

AMARALINA, risério? Que porra minha querida, amada, idolatrada, salve, salve Amaralina tá fazendo aí? Esta era a indagação que todos faziam aqui no Bar de Caveira, no Alto da Alegria, nesta véspera de feriado.

Afinal, todos os bebuns aqui sabem que na referida canção, a Vedete de Santo Amaro botou margarina e Carolina e outras inas, mas, Amaralina, não.  

Pois bem.

Depois de muitos debates, concluímos que o rapaz, que traz a contradição no próprio sobrenome (Ri Sério), continua um expert em citações, distribuindo-as à mancheia. Não importa se, para isso, tenha que trocar Margarina e Carolina por Amaralina.

AI, MINHA COLUNA CERVICAL!

Triste Aniversário

J f, 2008

Antes que abril comece de verdade, aproveito para honrar uma das mais caras tradições da Bahia: publicar no Ingresia uns rabiscos sobre Soterópolis no mês de seu aniversário. (Aos que duvidam desta gloriosa tradição nesta intimorata emissora, favor clicar aqui e ali).

Pois bem.

Reza a lenda que quando o menino Sartre aportou nesta província, em 1960, a poetisa Lina Gadelha disse-lhe que o dendê simbolizava a alma da cidade. Não sei se ele acreditou, mas sei que tão importante e mitológico episódio só chegou ao conhecimento do prefeito Joãozinho da Mamãe neste ano da graça de 2008 – e assim ele resolveu festejar os 459 de fundação de Salvador com um festival de acarajé.

Mas, derivo. O que queria dizer era que é preciso ser muito idiota para acreditar nessa conversa mole de que o dendê simboliza a alma desta cidade. Aliás, só os imbecis pensam que esta cidade tem alma. Não tem. Nenhuma cidade tem. Porém, se Soterópólis tivesse, é óbvio que não seria a oleaginosa, e sim o futebol, que a simbolizaria.

Em nenhum outro lugar do Brasil, ou quiçá do mundo, a paixão por este esporte é tão intensa quanto aqui. Nem mesmo quando as equipes frequentavam o subsolo dos certames nacionais, os jogos deixaram de bater recordes de público. E mobilizar toda a cidade – desde os porteiros e seus radinhos de pilha até os playboys com suas potentes e estúpidas caixas-de-som. Não que este comportamento insano deva ser louvado. Nécaras. É apenas um registro do grau de identificação, e talvez desespero, da cidade e de seu povo com o futebol.

E esta obsessão, que começou em 1905, com a disputa do primeiro campeonato, tornou-se mais insana e febril com a construção da Fonte Nova, em 1951. Inclusive, não seria despropósito modificar a sentença do parágrafo anterior e afirmar que a cidade amava mais o velho Estádio Octávio Mangabeira do que o próprio futebol. E com razão, pois o talento do arquiteto Diógenes Rebouças nos fez acreditar que o referido equipamento esportivo sempre esteve ali, antes mesmo dos tupinambás. Era um estádio que, ao contrário dos outros, se abria para a cidade. Até mesmo quando o jogo era ordinário dava para apreciar a bela paisagem que a Fonte oferecia.

Pois muito bem. Além de demonstrar a estupidez dos governantes desta província, a tragédia da Fonte Nova fez com que, pela primeira vez na história, Salvador fosse representada no Campeonato Baiano por apenas um time: O brioso Rubro-Negro.

Para se ter uma idéia da mudança, até 1953 este certame era composto apenas por times da Capital. Já neste ano, com o Bahia desterrado, sobrou somente o Vitória. E em verdade, vos digo: um único time não consegue dar conta da tamanha paixão deste povo. Talvez por isso, este tenha sido o mais triste aniversário da cidade. Triste e sem paixão, pois o degradante estágio do pebolismo soteropolitano refletiu-se na não menos degradante situação da capital baiana. Ou seria o contrário? Afinal, como ensinou o artilheiro e filósofo Jardel, “clássico é clássico e vice-versa”.

P.S. Para que a tristeza não impere por completo, apreciem esta bela foto de Paulo Mocofaya.

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Dois negros, duas medidas

J f, 2008

Vocês, céticos, podem até duvidar, mas a verdade é uma só: de quando em vez, o universo conspira para confirmar aquela melosa máxima, atribuída à vedete de Santo Amaro. Às aspas.  “É incrível a força das coisas quando elas têm que acontecer”.

Neste último domingo, por exemplo, na última apresentação do Ilê Aiyê antes do Carnaval, foi assim. As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. Sob um sol de mais de 40 graus, elas testemunharam o Sobrenatural de Almeida influenciando a performance dos músicos e das bailarinas do tradicional bloco afro. Enquanto Guiguio e Reizinho cantavam o tempo todo abraçados e afinados, as moças castigavam nas coreografias. (Uma delas parecia querer voar sobre o público). A entrega e a dedicação eram absolutas. Os tambores da Band’Aiyê tramaram uma inédita felicidade naquele insalubre recinto.

As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. O restante da humanidade continuará sem saber, pois as vastas emoções de ontem tornaram meus pensamentos ainda mais imperfeitos. E, assim sendo, calo-me.

Porém, insistente, busco notícias nos jornais. Inútil. Nas páginas dos referidos, há espaços somente para a patacoada sobre o Rei Momo Magro – chibança que, definitivamente, já encheu o saco. Apenas um jornal, o A Tarde, tratou do show. Tratou é forma de dizer. Na verdade, destratou. Melhor seria que o Vespertino adotasse a estratégia dos concorrentes e também optasse pelo silêncio. Talvez o constrangimento fosse menor. A cobertura do evento foi, para ficarmos no campo das boas maneiras, feita de forma intrafemural (isto é: nas coxas). O jornal sequer mandou um repórter ao local.

Porém, tal comportamento desleixado em relação ao Ilê Aiyê não desonra as tradições do A Tarde. Antigamente, aliás, as coisas eram muito piores. Na edição de 12 de fevereiro de 1975, quando o bloco desfilou pela primeira vez, o referido veículo já mostrava suas armas. Eis um trecho da matéria intitulada Bloco Racista, Nota Destoante. “Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye”.

Como atualmente é quase impossível repetir que “O Ilê Aiyê, apelidado de “Bloco do Racismo”, proporcionou um feio espetáculo neste carnaval”, resta louvar o bloco como “O mais belo dos belos”. Uma cobertura digna que é bom, nécaras. Nem ao menos um repórter para noticiar sobre a maior, gratuita e melhor festa pré-carnavalesca.

Tal desleixo, porém, não ocorreu com o evento comandado pela quituteira negra Dadá. Para cobrir a sua (lá dela) Feijoada Vip, o jornal mandou um repórter “ficar em cima do fato como carrapato”. Claro, lá haviam celebridades e outros descerebrados dispostos a pagar R$ 280 por um prato de comida. E foi feita uma grande cobertura. E foram publicadas importantes opiniões sobre a anfitriã, como a de, como o perdão da má palavra, Nizan Guanaes: “Ela é uma gênia”.

Ê Bahia. Como bem disse meu amigo  Luís Augusto, “quem deixa de ir ver gratuitamente a vigorosa percussão do Ilê e dá uma grana dessa numa porra dessa merece uma caganeira daquelas”.