Archive for outubro \30\UTC 2007

A sonora vingança da Orkestra Rumpilezz

J f, 2007

Nem a lua, nem o conhaque. O que realmente me deixou comovido como o diabo foi saber que chegou ao fim um constrangedor, indecente e inexplicável silêncio. Felizmente, os bons instrumentistas da Bahia resolveram dialogar com os tambores da religiosidade de matriz africana.

É vero que esta revolução na música baiana já acontece desde março de 2006, porém, não fiz fé. Pensei se tratar apenas de mais uma tentativa da interminável série de macumbas pra turista ou, na melhor das hipóteses, de mais uma sessão de lombra music tamborístico-jazzistica.

Ledo e ivo engano.

Na noite deste domingo, na Concha Acústica, finalmente me rendi à Orkestra Rumpilezz, este é o nome do milagre, que une o vigor percussivo dos batuques dos terreiros com um naipe de sopros da mais alta qualidade.

Creiam, hereges, eles fazem um trabalho que livra a Bahia do vexame a que fomos submetidos desde que nossas mais caras heranças musicais foram seqüestradas por um bando de seres rebolantemente macabros. E provam ainda que música ruim não é nossa sina, ao contrário do que já estávamos nos acostumando.

E temos a certeza de algo diferente logo no início da apresentação. O show começa na espinha mole, com os percussionistas dando o tom. Aliás, além da deferência de serem os primeiros a ocupar o palco, o respeito à força dos atabaques, timbaus, surdos e pandeiros se dá também no campo simbólico da indumentária. Os cinco rapazes, mais alinhados do que meio-fio, tocam de smoking branco. (Talvez os mais afoitos digam que isto é besteira. Não acho. Entendo que é uma forma de elevar a percussão, que sempre foi tratada com desleixo). Porém, o couro come mesmo quando os 15 músicos de sopro se juntam aos percussionistas. Acontece, então, uma explosão sonora que nos deixa felizes e orgulhosos. E, depois de tantas vergonhas, nada melhor do que bons motivos para nos orgulharmos e ficarmos contentes com as coisas desta besta e ainda bela província.

Mas, não prosseguirei com esta prosa ruim de pseudo-crítico musical ufanista. Não tenho esta vocação. Faço apenas este último parágrafo para registrar um episódio ocorrido em dezembro de 2003. Na ocasião, assisti pela primeira vez a uma exibição da Spok Frevo Orquestra de Recife, que dialogava com o frevo com respeito, mas sem aquele ranço saudosista. Foi uma experiência de lavar e enxaguar a alma. Ao término, porém, senti apenas vergonha. Vergonha de ser baiano e não termos a capacidade de unir tradição e modernidade de forma sensível e original.

Porém, com a Rumpilezz acabou a inveja. Estou vingado dos pernambucanos.

Agora, chega de lero e som na caixa maestro

P.S 1. O idealizador do projeto, Letieres Leite, não deu as caras no show da Concha. Quem comandou os trabalhos foi o menino André Becker, que botô pra vê tauba lascá ni banda.  

P.S 2. Vocês podem nem acreditar, mas todo este texto laudatório foi feito sem que minha maltratada conta bancária recebesse qualquer auxílio. Mas, nunca é tarde. Assim como a Rumpilezz, o Conselho Editorial do Ingresia também está aberto ao diálogo.

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Brisas e profecias

J f, 2007

Em julho de 2006, assim falou Sêo Françuel: “Que porra é esta de revitalização da Orla Marítima de Salvador? Anotem aí: Ou farão uma reforma malamanhada, intrafemural (ou seja, nas coxas), ou transformarão aquilo em um paraíso da especulação imobiliária. E o peão, uma vez mais, receberá no velho às de loscopita”.

Obrigado pelos fartos aplausos, mas não carece tanto. É muito fácil ser um bom profeta na Bahia: basta apostar no absurdo. A possibilidade de erro é remota.

E já que estamos na beira-mar, reproduzo um libelo escrito em agosto do ano passado. Recebam.

VAMOS VIVER DE BRISA

Quarta-feira, Agosto 16th, 2006

Se, como sentenciava o bardo William Burroughs, a linguagem é um vírus, o discurso do alcaide de Soterópolis João Henrique está com infecção generalizada.

E a doença não é uma metáfora.

Ouçam, em negrito, o que ele disse sobre a entrega da Orla Marítima à especulação imobiliária, travestida de liberação do gabarito. Às aspas: “Agora é preciso ter coragem, uma tomada de decisão para algo que devia ter sido feito há 20 anos e para fazer com que as pessoas parem de se indagar por que Salvador é a única cidade do Nordeste que não acordou para o potencial de riqueza de sua Orla”.

Estas 49 palavras do prefeito são muito menos inofensivas do que aparentam. Há, aí, tantas falácias quanto nas propagandas da Bahiatursa para enganar turistas, otários e afins.

Que história é esta, prefeito, de que “é preciso coragem” para se render aos barões da construção civil? Esta ladainha de valente a favor, que durante milênios foi usada por ACM, não cola mais.

É preciso coragem, João, para outras coisas. É preciso coragem para lutar contra os que, nesta bela, besta e maltratada Cidade da Bahia, resistem em abrir mão de seus seculares privilégios. É preciso coragem, João…Aliás, não. Chega de dicas. O senhor sabe muito bem para que é preciso ter coragem.

E outra. Onde é que está escrito que a Orla de Salvador tem que ser igual à das outras capitais na, como é mesmo?, exploração do “potencial de riqueza” ? Nécaras. O inverso é o certo. A cidade tem é que preservar o que ela ainda tem de singular. Nada de sombreamento nas praias e outros confortos do progresso. Por que temos que macaquear as miamis da vida?

Aqui mesmo, em Amaralina, em que pesem os canhões na paisagem, é direito inalienável continuar usufruindo desta brisa que nos beija e balança amorosamente. Sim, prefeito, amorosamente. A questão, para além dos argumentos técnicos, é de preservação também do patrimônio afetivo.

Até o outro João, o valentão da canção de Caymmi, que a todos intimidava, sabia que não era preciso dormir pra sonhar “porque não há sonho mais lindo do que sua terra”.

E nesta batalha contra a invasão da Orla não pode faltar o afeto. Só o amor pela cidade poderá barrar esta investida nefasta. E um governo que se pretende democrático e popular tem o dever de interferir a favor do afeto – e não do poder econômico.

A propósito, lembrei-me de outro crime contra os baianos e um de seus maiores patrimônios, o Carnaval, que começou a ser perpetrado em nome da tal modernização.

No início dos anos 90, Lídice da Mata, a quem quero muito bem, era a prefeita de Soterópolis quando caiu no conto do vigário da profissionalização da folia. Na ocasião, até o trajeto da gloriosa Mudança do Garcia eles, os modernizadores, com o aval dela, quiseram alterar, impedindo que a fuzarca desfilasse na passarela do Campo Grande.

O resultado é que hoje, espremidos mais ainda entre cordas e camarotes, estamos em busca do tempo perdido.

Desta vez, porém, assim como a menina Dolores Ibarruri fez no histórico 19 de julho de 1936, bradaremos: Na Orla de Salvador, no Pasarán.

Um plágio é um plágio é um plágio e é um plágio*

J f, 2007

Já disse, mas repito: a mais sábia sentença que escutei nos últimos 20 anos foi elaborada pela menina que trabalha lá em casa. Ouçam. “Sêo Françuel, o ser humano, humpf, ai, ai”.

Pois é, amigos ouvintes, não consigo vislumbrar melhor definição para esta raça de gente ruim. Hoje mesmo tive mais uma prova. Eram exatamente 8h39 da madrugada quando meu amigo Marconi Leal me informou que  Fausto Wolff mudou de profissão. Abandonou o glorioso mundo da literatura e se tornou um plagiador descarado (e existe plagiador que não seja descarado?). 

A princípio, quando recebi o e-mail dando conta de tão deplorável fato, não acreditei. Pensei até em colocar a culpa naquela ordinária água que passarinho não fuma. Mas, quá! As alucinações provocadas por substâncias não recomendadas pela carta magna são nada diante do delírio advindo das nefastas ações do homem.  

E a única solução que vejo para sanar tão nojenta questão é pedir um aumento na dosagem de cloridrato de metoclopramida. Aliás, não, doutor, cancela. Não tem Plasil que dê jeito.   

* O título deste texto é um quase plágio de Gertrude Stein. 

 

P.S. Meu amigo Cláudio Leal, que sempre enxerga através dos óculos de Dr. Pangloss, acha que nem tudo está perdido. Às aspas.

Se as receitas de Elíbia Portela não forem plagiadas, creio que o mundo ainda está salvo.

Fausto Wolff esteve mal de saúde, nos últimos tempos. Parou de beber. Sem bebida, pode ter perdido a inspiração”.