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A classe operária não vai mais ao Paraíso

J f, 2008

Talvez por ser de lá do sertão, lá do semi-árido, lá do interior, do mato, da caatinga…talvez. Talvez não. E pouco importa, pois a verdade que salva e liberta é uma só: motéis são recintos insuportáveis. Amor de plástico; movimentos determinados pelo tic-tac do relógio; tesão com hora marcada, insípido, inodoro.

Cristão ortodoxo, guio-me pelos ensinamentos religiosos que condenam, sem dó nem piedade, estes templos da perdição. Deu na Bíblia. Mateus 19, versículos 23 e 24 e Lucas 18,18: “É mais fácil aquecer o coração de um banqueiro do que esquentar o desejo daqueles que freqüentam os motéis”.

Palavras da Salvação.

No entanto, hoje em dia ninguém mais respeita o Livro Sagrado. Assim, penso que deveria existir uma cláusula pétrea na Tábua da Lei do Jogo do Bicho punindo severamente quem se atrevesse a ir de encontro aos evangelhos destes sábios apóstolos.

Mas, quá! Nesta Bahia, sem governo nem oposição, até o antigo e respeitado “vale o que está escrito” anda tão desmoralizado quanto as homilias de Padre Sadoc.

Porém, antes que os incréus acusem-me de fundamentalista, informo que cabe exceção até mesmo nos mais dogmáticos pressupostos bíblicos. Eis o endereço da salvação: Rua Democrata, 45. Ali, no fim de linha do glorioso 2 de Julho, sempre suspendi meu ódio aos inóspitos ambientes. Bastava chegar ao Motel Paraíso para esquecer as maldições de Lucas e Mateus.

(É vero que o Casarão, com aquela indecente (de tão linda) vista para a Baia de Todos os Santos, não surgiu como um motel, mas sim abrigando a Boate Clock – lar, doce lar da boêmia de antanho. Porém, não sou palhaço das perdidas ilusões, nem vou ficar chorando nostalgias que não vivi).

Voltando.

Dizia que aquele era o único recinto onde eu sublimava a minha ira santa contra os motéis. Gostava tanto, mas tanto, que muitas vezes fui lá e não aconteceu nada. (Oh, minha comadre, não pense isso de mim. Igual a Ziraldo, nunca broxei. Não acontecia nada apenas porque eu ia sozinho, vigiar o tempo e beber). O lugar era tão especial que, glórias aos céus, nunca foi indicado pelos jurados da Veja em qualquer categoria.

Pois muito bem. Saibam que a colocação dos verbos no passado não é por causa de meu habitual  desprezo para com a língua portuguesa. É mais grave. O referido motel fechou. Uns filhadaputa de uns estranjas, soube que italianos, compraram o Casarão.

E a classe operária não vai mais ao Paraíso pernoitar por 12 contos, com direito a lua furando o zinco e refletindo no mar.

Pena. É mais uma parte de cidade que (e na qual) eu deixo de amar.

P.S Porém, meu Motel Paraíso, saiba que, assim como na bela canção de Luedy e Antônio José, interpretada por Jussara Silveira, ainda “posso sonhar com você. Ou nem precisa ?“.

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