A Casa (nunca) Cai

J f, 2007

A Bahia pode ser acusada de tudo – menos de falta de respeito às suas tradições. E uma das tradições mais caras (às vezes, no sentido literal) a esta província é submeter-se a comunicadores (quase escrevo achacadores) semi-alfabetizados, pretensos defensores da coletividade, especialmente da camada de baixa renda, metidos a valentões e com um senso ético bastante elástico.

Muito provavelmente, o triunfo da referida espécie nestas plagas se deve à formação da, digamos assim, civilização baiana – que é essencialmente oral e ágrafa. Por isso, aqui viceja (receba, sacanas, um viceja pelas caixas dos peitos) a ensurdecedora mania de sempre ganhar no grito. Na Bahia, os que tentam argumentar já começam a peleja em sonora desvantagem em relação àqueles que têm um bom timbre de voz.

Mas, estes prolegômenos pretensamente erudito-analíticos servem somente para situar o desinformado ouvinte sobre a verdadeira origem desta primeira polêmica do verão baiano envolvendo Zé Eduardo e a TV Aratu.

Independentemente se o distinto foi realmente flagrado com os lábios na botija, uma coisa é certa: os futuros desdobramentos (desculpem-me a redundância, mas ela é necessária) das nebulosas transações nos remete ao passado, mais exatamente à década de 40 do século XX.

Naquela era, pontificava na Bahia José Gomes. Assim como seus sucessores, ele possuía uma irresistível atração pela bizarrice e não menor amor ao alheio. Mas, nécaras de furto puro e simples. Algumas de suas caraterísticas, que o tornaram o pai da matéria e inspirador dos atuais protagonistas da mídia baiana, são assim reveladas por um de seus biógrafos, Mark J. Curran, no livro Cuíca de Santo Amaro: Controvérsia no Cordel.

Ouçam.

“Uma das técnicas de Cuíca para obter histórias sensacionalistas era a extorsão jornalística. Claro que esta palavra, tão forte e direta, nunca foi usada pelo poeta. Porém, é certo que obtinha informações de natureza escandalosa e, para não publicá-las, exigia pagamento dos interessados. Ou publicava-as no folheto “quente” do momento, mas sem revelar nomes, apresentando somente uns poucos detalhes e insinuações. Assim, oferecia às pessoas interessadas a oportunidade de comprar a tiragem inteira da história que estava em preparo, história já prometida a um público curioso, história a ser espalhada às rua (sic) da Bahia”.

Além do descrito acima, nosso herói também complementava o orçamento fazendo denúncias por encomenda ou usando a milenar técnica da bajulação.

Qualquer semelhança com os métodos atuais não é mera coincidência. Como também não é acaso a aventura na (lucrativa) atividade política trajando o demagógico figurino de Pai dos Pobres.

Escutem um trecho do que Ele, o Tal, disse a respeito no panfleto intitulado Porque candidatei-me para vereador

“Por causa deste povo

muito tenho sofrido

por defender o povo

sempre fui perseguido

com toda a perseguição

tenho tudo combatido”

Pois muito bem. Para que vossos maltratados sacos não transbordem, abstenho-me de falar sobre as dezenas de seguidores do nosso “Gregório de Matos sem gramática”, conforme definição do já citado brasilianista Mark. Apenas encerro lembrando que Cuíca virou um personagem da vida cultural de Soterópolis.

Entre outras estripulias, fez o papel dele mesmo no filme A Grande Feira, de Roberto Pires; serviu de inspiração para Dias Gomes criar Dedé Cospe-Rima, em O Pagador de Promessa, além de ser citado por Jorge Amado em Bahia de Todos os Santos e perambular em Tereza Batista cansada de guerra, A morte e a morte de Quincas Berro D’Água e Pastores da Noite. Aliás, o marido de Zélia, sob o pseudônimo de João Garcia, assinou a primeira reportagem nacional na Revista Diretrizes, em 1943, sobre o distinto, que neste 2007 completaria 100 anos.

E, por tudo isso, arrisco uma profecia: a casa de Zé Eduardo não cairá. A folclorização na Bahia imuniza gente desta espécie.

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O Ingresia respeita (o filho de) Januário

J f, 2007

Desde o longínquo ano da graça de 1989, jurei que iria reverenciar o 13 de dezembro até o fim dos tempos ou do blog – o que dá no mesmo.

Acontece que, por desleixo ou mardade das pior, quase esquecia de cumprir esta promessa que fiz à Nossa Senhora dos Oito Baixos.  

Porém, como o dia está indo, quase findo e o tempo urge e ruge e não posso contrariar minha santa, deixo com vocês esta confissão feita em 2005.

Ouçam.

O Ingresia respeita (o filho de) Januário

Ainda era minino pequeno, coisa de sete, oito anos, quando me tornei devoto. Quem me apresentou ao Salvador foi meu pai. Aconteceu algo tipo o estalo de Vieira. Não sei explicar com mais detalhes. Só sei que foi assim. E, depois daquela conversão sob o céu que me protegia (e castigava) no semi-árido, nunca mais me desviei do sagrado caminho. De lá pra cá, é óbvio, desocupado como é, o Cão já atentou diversas vezes, prometendo insinuantes estradas de perdições às minhas velhas e desbotadas alpercatas. Porém,  firmes e religiosas pisadas não saem da rota por seduções vãs. Questão de fé.

Calma, minha senhora, toda esta ladainha nostálgica e metida a lírica é por uma boa causa: no último dia 13 de dezembro, entramos no ano da graça 93 DLG (Depois de Luiz Gonzaga). E datas santas existem para serem respeitadas. O Velho Lua completou mais um ano de vida. Sim, de vida. Vira esta boca pra a maré de vazante, incréu. Quem morreu foi Elvis, o irmão bastardo de Gonzagão no Mississippi.

Mas, já que descambei para as bandas do estrangeiro, lembrei-me agora de mais uma coisa: a apropriação indébita do Forró pelos ingleses. Poizé. Para tomar os pertences dos outros, os imperialistas inventam as versões mais fantasiosas – vide aquela conversa fiada de que a palavra mágica surgiu quando os engenheiros britânicos estavam construindo a ferrovia Great Western e realizavam folias For All e etc e coisa e tals.

Nero ar.

O velho Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, já ensinou: Forró vem de forrobodó, que os escravos africanos usavam para tratar das festas populares nas quais se dançava diumtudo, como diria os xibungos de hoje em dia e…epa, alto lá!. Não deixarei que os baitolas mudem o rumo desta prosa ruim. O fato é que Forró é sinônimo de baile ordinário, sem etiqueta. Só não venha pra cá com estes peitos moles regionalistas porque nesta Ingresia não cabe louvação às raízes ou a purismos bobos. O Forró não é inglês, mas é universal.

E, na verdade, na verdade (cacoete muito usado pelos advogados quando vão começar a mentir), escrevi todas estas bobagens acima apenas como um preâmbulo (longo, muito longo, é vero) para tentar salvar os pecadores que ainda estão na escuridão. O objetivo era apenas indicar este linque www.gonzagao.com.br/multimidia.php e mandar você clicar em cima de Forró de Mané Vito. Esta chibante canção, gravada em 1949, é primeira na qual aparece a palavra Forró pela primeira vez na história.

E mais não digo porque isto aqui não é o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nem muito menos o Correio Repórter. Agora, adiante o lado e vá ouvir logo os sons e as palavras de Gonzagão, que salvam e libertam. Garantia certa de lugar no céu. Bote fé”.

Uma tragédia, dois pontos de vista

J f, 2007

Noite de 25 de novembro. Preparava-me, ansioso, para fugir da poluição e da cerveja quente de São Paulo quando soube do desmoronamento na Fonte Nova. Mesmo tendo consciência de que era uma tragédia anunciada, fiquei perplexo. E perambulei pelos lotados corredores do Aeroporto de Guarulhos até que vi um adolescente com uma camisa do Bahia. Inadvertidamente, relatei o sinistro acontecimento ao garoto, que, ato contínuo, mudou o semblante e ficou completamente atônito.

Voltei para Salvador com o juízo aperreado por causa do rosto transtornado do menino, que deve ter a idade de meu filho. Não deveria ter sido tão imprudente, mas não deu para segurar o impulso. As mortes estavam relacionadas com uma de minhas mais intensas paixões, o futebol. E foi sob o mesmo impulso que, ainda na segunda-feira, escrevi um texto (com o qual concordo totalmente e que escreveria novamente) sobre a (ir) responsabilidade dos governantes.

Este texto foi contestado, em alguns pontos e de forma educada, pelo jornalista João Paulo, ex-chefe da Assessoria Geral de Comunicação do governo passado. Já o havia publicado, e feito as observações que entendia devidas, na caixa de comentários. Mas, depois compreendi que, pela importância, tal debate não poderia ficar escondido na referida caixa de comentários. Por isso, trago-o para a página principal – até porque o mesmo acabou sendo ofuscado por um outro texto sobre o mesmo assunto que publiquei logo em seguida.

Abaixo, os argumentos de João Paulo em itálico e os meus em negrito.

Desculpe, Franciel, mas tenho que, por dever de ofício, refutar uma informação contida no início de seu texto. A ação protocolada no início de 2006 pelo Ministério Público nunca chegou oficialmente à Sudesb no governo passado, pois, além de não ter sido despachada pela juíza, ela foi ajuizada numa vara (sem trocadilho, por favor) errada – na do Direito do Consumidor e não na de Fazenda Pública, a responsável por despachar contra o Estado.

Mesmo assim, e sabendo da situação do estádio, a Sudesb investiu entre 2005 e 2006 cerca de R$ 1,5 milhão em obras de recuperação na Fonte Nova. Além disso, em setembro de 2006 (antes de perspectiva de uma derrota eleitoral (pois acreditávamos em pesquisas), a Sudesb encomendou um estudo completo para basear os investimentos na recuperação do estádio.

Como a eleição foi perdida o estudo foi encaminhado para o atual governo. A veracidade disso pode ser atestada pelas palavras do próprio secretário Nilton Vasconcelos ontem no Jornal da Globo que adimitu que poderia ter investido os R$ 3 milhões apontados pelo estudo, mas preferiu outro tipo de medida pois pensava já na Copa de 2014.

Claro que a Fonte Nova estava em condições ruins, tanto que o antigo governo limitou a capacidade de público e interditou a área da Bamor.

Mas dizer que nada foi feito não corresponde com a verdade. Mesmo sem ter recebido qualquer ordem judicial, o governo anterior tomou providencias para evitar tragédias, contratou estudo para realizar obras a partir desde ano e, como perdeu as eleições,encaminhou esse estudo ao chamado governo de transição.

obrigado pela atenção de quem consiguiu ler este texto até o final.

abs

João, quase que desnecessário registrar o respeito que tenho por você. Mas, registro para que algum gaiato não faça um uso perverso desta sincera resposta que segue abaixo.

Seguinte.

Acho, francamente, que esta história de competência de varas é filigrana. Vi a Juiza Lícia Pinto Fragoso Modesto, da Defesa do Consumidor, tirar o corpo fora com o mesmo argumento. Não concordo. Lembro, inclusive, que a ação do MP foi muito noticiada à época – não sem algum deboche dos poderosos cartolas, jornalistas, radialistas e outros mais ou menos cotados. (Depois, pesquisarei e colocarei as matérias aqui).

Mas, acho que as ações drásticas e necessárias deveriam ser tomadas muito antes do dia 19 de janeiro de 2006. A Fonte Nova agonizava há séculos. Tragédias não aconteceram por obras do acaso. Não concordo nem compreendo que o Estado precisasse ser informado sobre a situação crítica para tomar as devidas providências. É óbvio que, não só por ser frequentador assíduo do velho estádio, mas também por dever de ofício, sei dos investimentos e reformas feitos – mas acredito que são (e foram) apenas paliativos. Foi isso que quis dizer no texto. E dizer também que o descaso governamental (do atual e dos anteriores) é simbólico de nossa cultura de remendos, como bem disse meu amigo Claudio Leal.

Abraços. 

Os profetas do acontecido

J f, 2007

A capa desta edição do último dia 27 do Jornal A Tarde é daquelas que já nascem antológicas, pois consegue um feito raro no jornalismo: emociona, comove, informa e denuncia sem cair no sensacionalismo.

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Acontece que alguns dos substantivos da referida primeira página servem para o próprio Vespertino. (E digo isso não por causa do espírito-de-porco que, de quando em vez, se apodera deste picuinhento locutor). A desmoralização está na edição do dia 23, apenas dois dias antes da tragédia na Fonte Nova. Vejam a capa do caderno de Esportes e logo abaixo a mesma em detalhes.

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FIM DE JOGO.

Tragédia na Fonte Nova revela a (falta de) alma dos governantes baianos

J f, 2007

Só os idiotas misturam futebol e política – e eu sou um idiota.

Então, em verdade vos digo: Nesta tragédia na Fonte Nova é impossível separar estes dois campos da atuação pública. Uma coisa é uma coisa, é uma coisa, é uma coisa. O atual e degradante estágio deste esporte, que é nossa mais intensa paixão, é conseqüência direta da forma macabra de (des) governo que nos infelicita há séculos. E que, registre-se e publique-se, não mudou absolutamente nada até agora no governo de Jaques Wagner.

Portanto, além de chorar os mortos, a Bahia deve também estar em prantos porque este sinistro acontecimento revela um outro não menos grave. Qual seja: ao invés de romper com o ancien régime, os novos gestores prosseguiram com o tradicional (e macabro) desleixo em relação ao bem-estar do cidadão/torcedor.

E nem é preciso invocar os séculos de desmandos – basta retornarmos ao início de 2006. No dia 19 de janeiro deste referido ano da graça, a promotora Joseana Suzart ajuizou ação civil pública solicitando a interdição do local, que, não por acaso, leva o nome do governador Octávio Mangabeira, aquele que falava sobre os precedentes dos absurdos na Bahia. Os antigos governantes nada fizeram.

Pois muito bem.

Ao invés de dar um basta na situação, interditando definitivamente o estádio até a completa solução dos problemas, o atual mandatário também cedeu aos apelos dos cartolas, radialistas e outras almas sebosas. Mais que isso. Optou-se pelo antigo caminho da maquiagem, com uma reforma malamanhada e intrafemural (ou seja, nas coxas) – e nécaras de mudanças estruturais de verdade (tal situação nos outros setores não é mera coincidência). Mas, esta enrolação específica foi desmascarada nesta foto da Agência Estado.

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É vero e óbvio que o simples conserto da Fonte Nova não mudaria os péssimos índices de analfabetismo, saúde e outros herdados dos mandantes anteriores e que não podiam ser resolvidos por decreto. Mas, quando nem no simbólico palco das lutas pebolísticas há indicativos de mudanças, é melhor tirarmos o time de campo.