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O diabo sabia das coisas

J f, 2008

Há exatos 70 anos, um dia, nove horas, 43 minutos e 28 segundos, o Sertão perdia um de seus ícones mais significativos e sanguinários. Os fuzis da volante do tenente João Bezerra, que abateram Lampião e suas inseparáveis alpercatas, transformaram o 28 de julho numa longa noite que nunca termina.

O quê? Como assim? Calma, minha senhora. Não precisa mudar de emissora. Que agonia da porra!

Tá certo. Sei que ninguém aguenta mais esta ladainha. Nem mesmo este violento locutor, que foi criado nas mitologias sertânicas, suporta mais ouvir sobre esta específica peleja. Nem sobre aqueloutra, dicotômica, que de um lado coloca Virgulino como herói e revolucionário e de outro no papel de bandoleiro, vilão e carrasco cruel.

Recorro a esta singela efeméride (recebam uma efeméride, cangaceiros desalmados) por causa de um insondável mistério envolvendo outro mito, o Diabo Louro, El Corisco. Eis a questão que me atormenta per secula seculorum : Mesmo depois que o grupo de Lampião foi exterminado e o cangaço estava no crepúsculo, por que diabos o menino Cristino Gomes da Silva Cleto não se entregou?

Para tentar responder a tão árida questão, percorri os mais tortuosos caminhos. Consultei meu infalível lunário perpétuo e os não menos infalíveis búzios e runas, fui aos almanaques, livros, tratados, entrevistei macacos da volante na aprazível cidade de Piranhas, em Alagoas – e nada.

Para se ter uma idéia das estradas das perdições que frequentei, acabei pesquisando até mesmo nos arquivos do Vespertino da Tancredo Neves. E não é que, contrariando a sábia sentença do Barão de Itararé (de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo), finalmente achei a resposta. Estava no placar da Sudebs. Ou melhor, na página 10, da edição de 23 de maio de 1940 de A Tarde. Vejam.

Além de valente, Corisco era um sábio. Ele sabia que era muito melhor enfrentar os fuzis e a maldade de Zé Rufino do que contrariar uma mulher. Touché.

 

P.S Abaixo, fiquem com a deliciosa história contada pelo escritor alagoano Fernando Soares Campos, “o cão do segundo livro”, relatada no La Insignia de 23 de dezembro de 2006.

Recebam.

“Agora eu vou contar o que aconteceu no dia em que Dadá foi entregar o filho Sílvio aos cuidados do Padre Bulhões.

Uma das histórias que não contaram

(Acredite se puder)

Santana do Ipanema, 1930 e uns trocados. A cidade está encravada no meio de um grupo de serras, entre elas o Alto do Cruzeiro, onde os cangaceiros costumavam acampar, mas não se arriscavam a entrar no centro urbano, que sediava um batalhão da Polícia Militar, instalado exatamente com o objetivo de combater os guerrilheiros do cangaço. Os cangaceiros chegaram pela madrugada, e, quando o dia amanheceu, Corisco e Lampião, em cima de um lajeiro, avistaram, lá embaixo, o Padre Bulhões acompanhando, de binóculo, a movimentação do bando.

Corisco:

– Se o Padre Bulhões fizé isso no Rio de Janeiro, vai tomá um tiro de AR-15. Ele só espia a gente desse jeito porque sabe que nóis é de paz!

Lampião:

– Será que num tem nenhuma velhinha aposentada filmando nóis?

– Que nada, cumpade! Isso só vai acontecê daqui a uns setenta ano!

– Cumpade, eu tenho a maior vontade de entrar na igreja de Sant’Ana – Lampião se benze.

Maria Bonita, que estava escutando a conversa sem ser notada, apresentou-se e falou animada:

– Aí, a gente aproveitava e se casava, né, Vivi?

Lampião protestou:

– Paraí, Mulé! Tu tá querendo dizer casar, casar mesmo!, de verdade!, com as benção do Padre Bulhões?!

– E apois!

– Tu num tá nem besta!

– Por quê?!

– Quem casa na igreja do Padre Bulhões num descasa nunca!

– E tu tá querendo casar pra depois descasar?!

– Não! Eu tou querendo não casar, que é pra depois num ter que descasar!

– Oxe! Num entendi nada!

– Além disso, tu já casou uma vez, e só vai ser permitido divorço no Brasil daqui a uns quarenta anos.

– Cumade – atalhou Corisco -, acho que entendi. O cumpade Virgulino tá querendo dizê que, enquanto se tá amigado, a mulher bajula o homi, fica toda se derretendo: é meu fio pra cá, meu fio pra lá… Essas coisa. Mas quando vê a aliança no dedo, aí a coisa muda, ela qué mandá na casa, regulá a vida do marido…

– Oxe! E eu sou lá mulher de botar cabresto em homi?!

– Tou só me prevenindo – explicou Lampião.

– Mas Vivi…

– Pare de me chamar de Vivi! Num fica bem… Os homens já tão me olhando meio atravessado… Tu sabe que meu nome é Virgulino Ferreira da Silva, mais pode me chamar de Capitão.

– É isso mermo, cumpade, num dá moleza pra mulher nããão! – alertou Corisco.

Dadá se aproxima soltando fogo:

– Ô, Corisco!!!

– Sim, minha fulô!

– Tu já trocou os pano de Silvio?!

– Desculpa, Dadá, desculpa, eu me esqueci!

– Então vai logo, homi, avia! A gente vai ter que entregar o menino ao Padre Bulhões ainda hoje. Avia! Avia! Aproveita e lava a louça do café.

Corisco pede licença aos compadres e sai apressado.

Dadá fala pra Maria Bonita:

– É assim mesmo, comadre, a gente num pode dá moleza pra esses marmanjo não!

Maria Bonita olha pra Lampião, segura ele pelo lenço do pescoço e diz:

– Vem cá, seu cabra da peste! Vumbora ali pra detrás daquela capoeira!

Os dois no maior amor por detrás da capoeira. No meio do vuco-vuco, Maria Bonita murmura:

– Viviii!

E Lampião assente:

– Aqui pode!, aqui pode! Mas num me chama assim na frente dos homem não, minha fulô!

Se entrega, Corisco!!!

Eu não me entrego não

Não me entrego ao tenente

Não me entrego ao capitão

Eu me entrego só na morte

De parabelo na mão…

Hoje eu só me entrego pra Dadá

Dona do meu coração”.

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