A classe operária não vai mais ao Paraíso

Talvez por ser de lá do sertão, lá do semi-árido, lá do interior, do mato, da caatinga…talvez. Talvez não. E pouco importa, pois a verdade que salva e liberta é uma só: motéis são recintos insuportáveis. Amor de plástico; movimentos determinados pelo tic-tac do relógio; tesão com hora marcada, insípido, inodoro.

Cristão ortodoxo, guio-me pelos ensinamentos religiosos que condenam, sem dó nem piedade, estes templos da perdição. Deu na Bíblia. Mateus 19, versículos 23 e 24 e Lucas 18,18: “É mais fácil aquecer o coração de um banqueiro do que esquentar o desejo daqueles que freqüentam os motéis”.

Palavras da Salvação.

No entanto, hoje em dia ninguém mais respeita o Livro Sagrado. Assim, penso que deveria existir uma cláusula pétrea na Tábua da Lei do Jogo do Bicho punindo severamente quem se atrevesse a ir de encontro aos evangelhos destes sábios apóstolos.

Mas, quá! Nesta Bahia, sem governo nem oposição, até o antigo e respeitado “vale o que está escrito” anda tão desmoralizado quanto as homilias de Padre Sadoc.

Porém, antes que os incréus acusem-me de fundamentalista, informo que cabe exceção até mesmo nos mais dogmáticos pressupostos bíblicos. Eis o endereço da salvação: Rua Democrata, 45. Ali, no fim de linha do glorioso 2 de Julho, sempre suspendi meu ódio aos inóspitos ambientes. Bastava chegar ao Motel Paraíso para esquecer as maldições de Lucas e Mateus.

(É vero que o Casarão, com aquela indecente (de tão linda) vista para a Baia de Todos os Santos, não surgiu como um motel, mas sim abrigando a Boate Clock – lar, doce lar da boêmia de antanho. Porém, não sou palhaço das perdidas ilusões, nem vou ficar chorando nostalgias que não vivi).

Voltando.

Dizia que aquele era o único recinto onde eu sublimava a minha ira santa contra os motéis. Gostava tanto, mas tanto, que muitas vezes fui lá e não aconteceu nada. (Oh, minha comadre, não pense isso de mim. Igual a Ziraldo, nunca broxei. Não acontecia nada apenas porque eu ia sozinho, vigiar o tempo e beber). O lugar era tão especial que, glórias aos céus, nunca foi indicado pelos jurados da Veja em qualquer categoria.

Pois muito bem. Saibam que a colocação dos verbos no passado não é por causa de meu habitual  desprezo para com a língua portuguesa. É mais grave. O referido motel fechou. Uns filhadaputa de uns estranjas, soube que italianos, compraram o Casarão.

E a classe operária não vai mais ao Paraíso pernoitar por 12 contos, com direito a lua furando o zinco e refletindo no mar.

Pena. É mais uma parte de cidade que (e na qual) eu deixo de amar.

P.S Porém, meu Motel Paraíso, saiba que, assim como na bela canção de Luedy e Antônio José, interpretada por Jussara Silveira, ainda “posso sonhar com você. Ou nem precisa ?“.

Anúncios

14 Respostas to “A classe operária não vai mais ao Paraíso”

  1. samuca Says:

    Acabaram com o Paraiso; Alumiaram o Alto de Ondina todo, desnaturando assim, a função social daquelas ribanceiras proximas ao zoologico e à casa do governador.
    Salvador está ficando sem graça mesmo.

  2. Hilário, o operário Says:

    O Paraíso era um paraíso desde a entrada. Que outro motel tinha um estacionamento com tal vista? Quanta saudade do quarto 13., aquele que ficava atrás do balcão da recepção e de onde pude acompanhar toda a construção da Bahia Marina, desde as primeiras caçambas de pedras depositadas nas calmas águas da Baía de Todos os Santos. Adailton, o porteiro da noite, sempre que me via chegar buscava logo as chaves do 13. Se não fosse o 13, talvez ainda fosse um homem solteiro.
    Muito obrigado pela lembrança.

  3. faminto, o baiano burro Says:

    Os baianos, assim como o primeiro casal, foram expulsos do paraíso. Pelo menos lá não poderão mais comer o fruto proibido, ou já totalmente liberado. Fica apenas o ditado: Quem dá aos pobres, tem que pagar o motel.

  4. Indy Says:

    Franciel,
    quando eu crescer vou escrever igual a você. Juro.
    Que lindo!
    Lamento não ter conhecido esse Paraíso.

  5. Grande Irmão Says:

    Sêo Françuel,

    Não tive o prazer de conhecer o referido local, mas acredito no seu depoimento, que pelo que entendi, foi um frequentador “habitué” do local.

    A Bahia está acabando…

  6. Nevermore! Says:

    Eu o chamava de Clock. E ali fui feliz, tanto quanto posso ser.
    Dezembros depois, paraíso perdido, as noites do velho casarão ainda me atormentavam, como o corvo do Poe às avessas, granando que Lenore continua linda e que chave do 15 estaria no quadro.
    Derrubem o Hotel Clock! Mas derrubem com cuidado, que paixões mal curadas ainda vagam por lá, desde o século passado, assombrando copeiras e amantes desavisados.

  7. Janjão de Aratuípe Says:

    Seu Françuel, tenho que recorrer ao sábio slogan da Funerária Decorativa… “Quando lhe faltam as palavras”…

    Depois do fim do Líder, mais esta baixa… O Mundo é dos neo-yuppies… Juro que não passo mais pelo velho Dois de Julho, para ver se meu coração estanca…

  8. Hilário, o operário Says:

    O Líder acabou? Que porra é essa? Logo agora que os caras reformaram o local? Chega de notícia triste, por favor.

    Mas, Janjão disse que o Líder acabou exatamente porque fizeram a reforma. Sobre o tema, inclusive, este locutor já fez o seguinte pronunciamento à nação.
    https://ingresia.wordpress.com/2007/09/24/a-incrivel-e-triste-historia-de-um-desalmado-sequestro

  9. Maria Quitéria Says:

    Por tantas vezes, em companhias – sim, no plural mesmo – em companhias até hoje caras, fui ao Clock. Eu e meu amado e O outro casal – também amado. Descíamos a bela escadaria. Nos quartos, bebíamos, fumávamos, jogávamos. Transformamos o aprazível local numa extensão das nossas casas, do nosso amor, da nossa amizade e das nossas vidas. E assim, Adailton – o mesmo citado acima-, parte importante em tudo que vivemos, de vez em quando, dizia ao chegarmos: “o outro casal está aí”. Nosso rumo mudava para o quarto vizinho onde bebíamos, fumávamos e jogávamos, antes de nos recolhermos ao nosso ninho – o quarto vizinho, pois também tínhamos quarto cativo.
    Da janela víamos a exuberância da Baía de Todos os Santos; os meninos pulando em mergulhos espetaculares; barcas a navegar, pescadores na labuta…Enfim, boas vivências que agora têm data marcada para deixarem de existir em matéria. Felizmente, restam-nos as lembranças…

  10. canijah, o grauça Says:

    Franci, você é um THC (típico habitante da cidade). Apreciar a Baía de Todos Aqueles de um quarto de motel é foda. Prefiro uma bela praça contruida por Pinheiro naquele lugar e apreciar a imensidão azul dos trópicos. Pra namorar gostoso basta ficar em pé com os joelhos agachadinhos na ladeira do passeio público. Dá pra ver tuuuudo!!!! A Holanda é aqui!!!!

  11. Fred Says:

    A virose lhe fez bem, meu caro. De boa pena o texto. O Clock era, de fato, uma exceção aos “insípidos e inodoros” (rapá, uma ironia científica!). Algumas vezes, entretanto, lotado de apreciadores da paisagem, aquele romântico estabelecimento deu lugar ao Democrata. Fazer o quê?

  12. faminto, o baiano sem diploma de jornalismo Says:

    Fui notificado na fria tarde duma sexta, que não poderia mais fazer parte do conselho editorial do ingresia, pois dele só farão parte os que possuírem DRT e DST. Como mentir sozinho eu sou capaz e não quero escrever em jornais, me despeço deste conselho, após três anos de dura labuta e nenhum tostão. Se alguém souber de curso de graduação ou especialização para formação de comentaristas de blogs, favor avisar. Juro que após me formar ,voltarei mais capacitado para fazer comentários mais judiciosos por uma cidade melhor. E tome obra!

  13. Sacramentina Says:

    Muitas vezes fui convidada a passar a noite no Clock. Sempre convites fraternos, quase estudantis: “Vamos ao Clock, jogar um baralhinho, tomar um vinho?”. A todos recusei. Minha formação sacramentina sempre desconfiou dessa história de ir à motel em grupo, apesar dos protestos de que era “um ambiente familiar”. A mim sempre pareceu local suspeito e escuso, locação aparentada com ambientes rodrigueanos. Agora, mexerem no Alto de Ondina é uma maldade. Para onde irão os casais de boa formação e que praticam sexo saudável? É um complô do trade motelístico, todo dominado por empresários evangélicos que querem tornar o amor, essa dádiva divina, inodoro e insípido.

  14. Cabelo de Q-bôa Says:

    Se meu candidato nelson pinheiro,ou antonio imabssahy,ou joão henrique, for eleito, vou recauchutar o 2 de julho com dinheiro da petrobrás e integra-lo ao T.O.B.A – TranspOrte Baiano Aéreo, que vai fazer a ligação entre a estátua do caboclo e a estátua do zumbi, introduzindo os ideais republicanos na população desta capital.
    A bahia vai mudar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: