Triste Aniversário

Antes que abril comece de verdade, aproveito para honrar uma das mais caras tradições da Bahia: publicar no Ingresia uns rabiscos sobre Soterópolis no mês de seu aniversário. (Aos que duvidam desta gloriosa tradição nesta intimorata emissora, favor clicar aqui e ali).

Pois bem.

Reza a lenda que quando o menino Sartre aportou nesta província, em 1960, a poetisa Lina Gadelha disse-lhe que o dendê simbolizava a alma da cidade. Não sei se ele acreditou, mas sei que tão importante e mitológico episódio só chegou ao conhecimento do prefeito Joãozinho da Mamãe neste ano da graça de 2008 – e assim ele resolveu festejar os 459 de fundação de Salvador com um festival de acarajé.

Mas, derivo. O que queria dizer era que é preciso ser muito idiota para acreditar nessa conversa mole de que o dendê simboliza a alma desta cidade. Aliás, só os imbecis pensam que esta cidade tem alma. Não tem. Nenhuma cidade tem. Porém, se Soterópólis tivesse, é óbvio que não seria a oleaginosa, e sim o futebol, que a simbolizaria.

Em nenhum outro lugar do Brasil, ou quiçá do mundo, a paixão por este esporte é tão intensa quanto aqui. Nem mesmo quando as equipes frequentavam o subsolo dos certames nacionais, os jogos deixaram de bater recordes de público. E mobilizar toda a cidade – desde os porteiros e seus radinhos de pilha até os playboys com suas potentes e estúpidas caixas-de-som. Não que este comportamento insano deva ser louvado. Nécaras. É apenas um registro do grau de identificação, e talvez desespero, da cidade e de seu povo com o futebol.

E esta obsessão, que começou em 1905, com a disputa do primeiro campeonato, tornou-se mais insana e febril com a construção da Fonte Nova, em 1951. Inclusive, não seria despropósito modificar a sentença do parágrafo anterior e afirmar que a cidade amava mais o velho Estádio Octávio Mangabeira do que o próprio futebol. E com razão, pois o talento do arquiteto Diógenes Rebouças nos fez acreditar que o referido equipamento esportivo sempre esteve ali, antes mesmo dos tupinambás. Era um estádio que, ao contrário dos outros, se abria para a cidade. Até mesmo quando o jogo era ordinário dava para apreciar a bela paisagem que a Fonte oferecia.

Pois muito bem. Além de demonstrar a estupidez dos governantes desta província, a tragédia da Fonte Nova fez com que, pela primeira vez na história, Salvador fosse representada no Campeonato Baiano por apenas um time: O brioso Rubro-Negro.

Para se ter uma idéia da mudança, até 1953 este certame era composto apenas por times da Capital. Já neste ano, com o Bahia desterrado, sobrou somente o Vitória. E em verdade, vos digo: um único time não consegue dar conta da tamanha paixão deste povo. Talvez por isso, este tenha sido o mais triste aniversário da cidade. Triste e sem paixão, pois o degradante estágio do pebolismo soteropolitano refletiu-se na não menos degradante situação da capital baiana. Ou seria o contrário? Afinal, como ensinou o artilheiro e filósofo Jardel, “clássico é clássico e vice-versa”.

P.S. Para que a tristeza não impere por completo, apreciem esta bela foto de Paulo Mocofaya.

fonte-nova.jpg

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12 Respostas to “Triste Aniversário”

  1. JP Says:

    Françualdo. Nunca me arrependo quando entro nessa ingresia. Mais um belo artigo (ou post, sei lá). Não querendo me ombrear à sua retórica escrita (!!!!!!!), acho que este texto dialoga com um escrito por mim na Revista da Metrópole nº8 do saudoso Humberto (que a Paulicéia o tenha). Falando nisso, como vc está se virando sem seu principal assecla de Barradinho?
    abs
    JP

    Deixe disso, rapaz. Modéstia faz mal à saúde.
    Quanto a Humberto, estou com pena dos paulistas.

  2. Humberto Says:

    Ô françuel,
    que porra é essa, mermão?
    Está afinando com as carniças agora? Se aqui de longe já é salutar saber que as ‘miséras’ continuam procurando um barraco pra morar, vc daí vem me dizer que a cidade está mais triste pro causa da falta da Fonte Nova. Uma metrópole que tem um equipamento esportivo da categoria do Parque Socio-Ambiental-Esportivo Manoel Barradas, não tem qualquer motivo para se ressentir de nada. Nem de ter Joãozinho de Mainha como prefeito. Parece que foi só deixar de lhe carregar pro Barradão por duas semanas pra vc já começar com fescuras. Se oriente, rapá!
    Como diria Totonha de Narandiba (ela mora no Doron, mas é de Narandiba): “Todo castigo pra corno é pouco. Pras putas então…”
    Por mim elas ficam por aí vagando entre Itinga, Feira e Camaçari até ir dividir um quartinho na Vila Canária com o Ypiranguinha.
    E sobre os paulistas, tenha pena mesmo.

    Humberto, estou falando apenas de estádio de futebol. O Santuário Ecológico está em outra categoria, oquei?

  3. O chico que bateu no bode Says:

    É triste ver a antiga fonte nova estampada nesta “bela foto de Paulo Mocofaya” num tempo em que ela era um dos pontos altos de Soterópolis. Tristeza ainda maior porque as porradas que mais sentimos são aquelas que não esperamos. Num dia é achincalhe pra lá, pirraça pra cá, enfim, a velha murrinha entre rubro-negro e tricolor, no outro é choro e vela pela morte de sete infelizes que agora já foram esquecidos. O que sobra? mais galhofa, picuinha, amenidades e um coliseu em ruinas onde não entram mais nem o leão nem o cristão (o pão já não tinha e o circo foi fechado por temo indeterminado). A velha fonte nova.

  4. zeh de obrah Says:

    dividir um quartinho com o mais querido uma porra… e lá a vila canária é lugar de sacana, rapá? lá só tem rente fina, trabalhadora, honesta… igual quando vim de mundo novo e mainha sentenciou: dividir quartinho sim, só num divida us quartos.

  5. Serbão Says:

    Franciel, por falar no nobre esporte bretão… por que cargas d’água o mascote do Bahêa é o Superman???

    Sérgio, a história é longa. Eles queiram colocar a mulher maravilha, mas aí alguém teve a idéia de colocar aquele rapaz com roupinha apertada e cueca por cima para disfarçar não sei o que.

  6. Carente do Bahia Says:

    Uma foto fálica. Notaram?

  7. Janjão de Aratuípe Says:

    Sou um leitor atento, mas confesso que não entendi o artigo. Talvez a bebida ou uns baforadas a mais numa elba ramalho que peguei… Mas qual a relação da interdição da fonte nova com o fato de Salvador ter somente uma agremiação pebolística?

    Além do glorioso E.C. Victoria – campeão de terra e mar – havia outro time de futebol na capital antes do derradeiro apagar das luzes da velha fonte? Desconheço.

  8. waldir moleza Says:

    minhas amigas, meus amigos, precisamos continuar nossa luta em prol do polvo e de um só quiabo fazer um caruru, e de uma só bola entre as pernas fazer um suculento craque bobô de camarão no palácio de ondina. o sofrimento dos mais necessitados e a força brutal de antonio carlos, avassaladora. a bahia vai mudar com jaques wagner, o cabelo de Qboa e a frente fria que traz as chuvas torrenciais e provocam os deslizamentos dos barrancos e encostas é tudo culpa de d. ruth cardoso. saibam vocês q o fiat elba das propinas da direita golpista e reacionária vale muito mais que o land rover da pureza esquerdista e as fezes aguadas diarréicas de lula transformadas em néctar dos deuses serão servidas na merenda escolar junto a uma cartilha do PT. e na solenidade da inauguração do estádio de pitú-açú teremos centenas de shows do ex-carlista e agora petista desde girino carlinho brown e quem se posicionar contra terá sua vida bisbilhotada pelo dedo ameaçador de dilma roussef que é a mãe! a mãe do PAC, chefa do neo-SNI e afilhada de zé dirceu. temos e tememos emiliano josé com sua baba raivosa e suas lembranças lambanças do mar cinzento e ele é o precursor dos cabelos de Qboa. a bahia vai mudar com jaques wagner, o cabelo de Qboa. no aniversário da cidade trilharemos o caminho para a democracia q é uma estrada florida com pássaros sissilbando e q recebeu um banho de asfalto a mando de geddel malvadeza q já está articulando por baixo do pano de nádegas uma aliança com grampinho, e em breve geddel malvadeza vai puxar o tapete de jaquinho. este sumirá por uns tempos e voltará à ribalta politiqueira como prefeito de abaíra e lá instalará um alambique de industrialização de Qboa bem próximo ao pólo calçadista de paulo souto na buraqueira 2010. quem viver beberá e o estádio de pitú-açu é uma prioridade. vamos todos nos juntar nesta luta incomensurável pela igualdade dos homens e para ver o buffet toda depiladinha de lícia fábio e vibrar com a performance de preta gil descendo com a mão no tabáco e com a outra mão colocando mais uma argolinha na orelha já cheia de furos e furicos de márcio melloreles. minhas amigas, meus amigos, a bahia vai mudar com jaques wagner, o cabelo de Qboa.

  9. Christiana Fausto Says:

    Meu querido Seo Françuel,
    Só tenho que louvar mais uma vez seu estilo único, sarcástico, ácido e ferino. Viva a inteligência baiana, da qual vc é o maior representante na nossa blogosfera. Abraços e vida longa ao ingresia, bálsamo dos bálsamos, néctar dos néctares e manjar dos manjares.

    Deus llhe pague. Mas, se Ele faltar, não se preocupe: já depositei a verba em sua conta conforme combinado.

  10. Fernando Vita Says:

    Caro Françuel,

    O Ingresia mora entre os meus favoritos e o visito sempre. Hoje, alegria dupla: mais um texto seu, todo nos conformes, sobre a nossa cidade. E, de quebra, uma belíssima foto do celébre Paulo Mocofaya, mostrando porque a Fonte deve ser eternizada onde foi originalmente cavada, como desejam Diógenes Rebouças e todos os soteros de bom juízo. Valeu, portanto, por tudo. E quando der de cara com o Mocofaya supra aludido, pergunte-lhe como se deu o caso, raríssimo, de colisão de um velho e subangado fusca, que ele guiava e dava-se como dono, com uma carrocinha da Kibon, aí pelos anos setenta, nas imediações do Largo de São Bento. E, se não for pedir muito, repasse-lhe um abraço fraterno.

    Fernando Vita

    Bom. Quanto à foto de Mocofaya, nenhum retoque. Agora, ao saber que vossência perde tempo com o Ingresia, fiquei decepcionado. Pensei que fosse um homem de leituras melhores.

    Ah, sim. falando sério. Acabo de falar com Mocofaya e, sinceramente, ele ficou emocionado com suas lembranças e mandou retribuir o abraço.

  11. giló Says:

    kkkkkkkkk

    DÁ_LHE WALDIR! VC É O CARA, MÊRMÂO. TÚ É MUITO ESCROTO DO JEITO Q ESSE POVO MERECE SER TRATADO MESMO.

  12. Véio da Lobrás Says:

    Franciel, meu bom, se você quiser eu posso mandar um rezador que tem aqui pelas bandas do Raso da Catarina pra dar uns passes na nossa Velha Dessemelhante. O homem não tem parelha.
    Outro dia tinha um senhor aqui no sertão que tava muito doente e, depois de esgotadas todas as possibilidades químicas, apelaram pra ele. Cheio de mungangas, folhas e apetrechos, ele foi lá, fez a sua onda e foi embora. Uns três dias depois ao encontrar alguém da família, estufou o peito e perguntou: “e o velho, como está?” A resposta veio na bucha: “Morreu logo depois que o senhor foi embora”. E ele, sem perder o rebolado, mandou: “mas tenho certeza que ele morreu bastante melhorado!”, e continuou a sua caminhada com a certeza do dever cumprido.

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