Archive for abril \04\UTC 2008

Risério, tenha dó de minha coluna cervical

J f, 2008

Sei que este espaço não deveria ser destinado às confissões, mas hoje, em edição extraordinária, abro uma exceção. E conto um pouco sobre minha vida.

Seguinte.

Em meados da década de 90, sofri um grave acidente que quase me deixou paraplégico. O plantão foi rigoroso, sopa de tamanco. Porém, ao contrário de muitas pessoas que nestas ocasiões procuram culpados, confesso: tudo aconteceu por causa de minha incurável teimosia.

Alguns amigos já haviam me alertado de que era preciso ter muito cuidado para me aventurar nas, digamos assim, obras de Antonio Risério. Mas, teimoso, não dei ouvidos à bondade alheia – e resolvi atravessar um livro do referido (Textos e Tribos) sem tomar as devidas precauções. Não deu outra. Sai tropeçando nas infindáveis citações. Em uma página eu me livrava de Malinowski, Otto Jespersen, Edward Sapir, Abraham Moles e, já na seguinte, tinha que driblar Lévy-Bruhl, Saussure, Ernest Haeckel, Lévi-Strauss, Kristeva, Hölderin, Wilhelm Schlegel, Durkheim, Maurice Leroy, Derrida, Sílvio Romero… Pronto, quando ele meteu Sílvio Romero neste bolo acabei entortando minha coluna cervical.

Agora, passados 15 anos, e depois de ter escapado de algumas balas e de muitos vícios, quase morro de susto.

Seguinte.

A Bahia e uma banda de Sergipe são testemunhas de que tentei manter uma distância razoável do escritor, filósofo, compositor, poeta, antropólogo e veranista de São Tomé de Paripe. Mas, não sei se para penitenciar-me por ter ido ao Barradão ontem à noite, decidi novamente encarar outro texto do referido publicado no Terra Magazine. Às aspas.

Aquário é ou deveria ser, pura e simplesmente, reservatório de água. E piscina vem de “piscis” – peixe, em latim. Piscina é viveiro de peixes. Ou seja: o que chamamos de aquário seria, na verdade, uma piscina – e o que chamamos de piscina é certamente um aquário. Como se explica isso? A poesia talvez ajude. Em sua composição “Baby”, obra-prima da poemúsica brasileira, Caetano canta: “você precisa saber da piscina, de Amaralina, da gasolina…”. Concluo então, facilmente, que, entre a piscina e a praia de Amaralina, o poeta desejou que a gata em questão se resolvesse a ser uma sereia. Para se deixar levar pelo seu canto. O que quer a gasolina no cenário? Sei lá. Talvez ela esteja ali porque, na época, o poeta morava em São Paulo. Paulista é quem sabe desse negócio de carro, gasolina e trânsito”.

AMARALINA, risério? Que porra minha querida, amada, idolatrada, salve, salve Amaralina tá fazendo aí? Esta era a indagação que todos faziam aqui no Bar de Caveira, no Alto da Alegria, nesta véspera de feriado.

Afinal, todos os bebuns aqui sabem que na referida canção, a Vedete de Santo Amaro botou margarina e Carolina e outras inas, mas, Amaralina, não.  

Pois bem.

Depois de muitos debates, concluímos que o rapaz, que traz a contradição no próprio sobrenome (Ri Sério), continua um expert em citações, distribuindo-as à mancheia. Não importa se, para isso, tenha que trocar Margarina e Carolina por Amaralina.

AI, MINHA COLUNA CERVICAL!

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Triste Aniversário

J f, 2008

Antes que abril comece de verdade, aproveito para honrar uma das mais caras tradições da Bahia: publicar no Ingresia uns rabiscos sobre Soterópolis no mês de seu aniversário. (Aos que duvidam desta gloriosa tradição nesta intimorata emissora, favor clicar aqui e ali).

Pois bem.

Reza a lenda que quando o menino Sartre aportou nesta província, em 1960, a poetisa Lina Gadelha disse-lhe que o dendê simbolizava a alma da cidade. Não sei se ele acreditou, mas sei que tão importante e mitológico episódio só chegou ao conhecimento do prefeito Joãozinho da Mamãe neste ano da graça de 2008 – e assim ele resolveu festejar os 459 de fundação de Salvador com um festival de acarajé.

Mas, derivo. O que queria dizer era que é preciso ser muito idiota para acreditar nessa conversa mole de que o dendê simboliza a alma desta cidade. Aliás, só os imbecis pensam que esta cidade tem alma. Não tem. Nenhuma cidade tem. Porém, se Soterópólis tivesse, é óbvio que não seria a oleaginosa, e sim o futebol, que a simbolizaria.

Em nenhum outro lugar do Brasil, ou quiçá do mundo, a paixão por este esporte é tão intensa quanto aqui. Nem mesmo quando as equipes frequentavam o subsolo dos certames nacionais, os jogos deixaram de bater recordes de público. E mobilizar toda a cidade – desde os porteiros e seus radinhos de pilha até os playboys com suas potentes e estúpidas caixas-de-som. Não que este comportamento insano deva ser louvado. Nécaras. É apenas um registro do grau de identificação, e talvez desespero, da cidade e de seu povo com o futebol.

E esta obsessão, que começou em 1905, com a disputa do primeiro campeonato, tornou-se mais insana e febril com a construção da Fonte Nova, em 1951. Inclusive, não seria despropósito modificar a sentença do parágrafo anterior e afirmar que a cidade amava mais o velho Estádio Octávio Mangabeira do que o próprio futebol. E com razão, pois o talento do arquiteto Diógenes Rebouças nos fez acreditar que o referido equipamento esportivo sempre esteve ali, antes mesmo dos tupinambás. Era um estádio que, ao contrário dos outros, se abria para a cidade. Até mesmo quando o jogo era ordinário dava para apreciar a bela paisagem que a Fonte oferecia.

Pois muito bem. Além de demonstrar a estupidez dos governantes desta província, a tragédia da Fonte Nova fez com que, pela primeira vez na história, Salvador fosse representada no Campeonato Baiano por apenas um time: O brioso Rubro-Negro.

Para se ter uma idéia da mudança, até 1953 este certame era composto apenas por times da Capital. Já neste ano, com o Bahia desterrado, sobrou somente o Vitória. E em verdade, vos digo: um único time não consegue dar conta da tamanha paixão deste povo. Talvez por isso, este tenha sido o mais triste aniversário da cidade. Triste e sem paixão, pois o degradante estágio do pebolismo soteropolitano refletiu-se na não menos degradante situação da capital baiana. Ou seria o contrário? Afinal, como ensinou o artilheiro e filósofo Jardel, “clássico é clássico e vice-versa”.

P.S. Para que a tristeza não impere por completo, apreciem esta bela foto de Paulo Mocofaya.

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