Dois negros, duas medidas

Vocês, céticos, podem até duvidar, mas a verdade é uma só: de quando em vez, o universo conspira para confirmar aquela melosa máxima, atribuída à vedete de Santo Amaro. Às aspas.  “É incrível a força das coisas quando elas têm que acontecer”.

Neste último domingo, por exemplo, na última apresentação do Ilê Aiyê antes do Carnaval, foi assim. As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. Sob um sol de mais de 40 graus, elas testemunharam o Sobrenatural de Almeida influenciando a performance dos músicos e das bailarinas do tradicional bloco afro. Enquanto Guiguio e Reizinho cantavam o tempo todo abraçados e afinados, as moças castigavam nas coreografias. (Uma delas parecia querer voar sobre o público). A entrega e a dedicação eram absolutas. Os tambores da Band’Aiyê tramaram uma inédita felicidade naquele insalubre recinto.

As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. O restante da humanidade continuará sem saber, pois as vastas emoções de ontem tornaram meus pensamentos ainda mais imperfeitos. E, assim sendo, calo-me.

Porém, insistente, busco notícias nos jornais. Inútil. Nas páginas dos referidos, há espaços somente para a patacoada sobre o Rei Momo Magro – chibança que, definitivamente, já encheu o saco. Apenas um jornal, o A Tarde, tratou do show. Tratou é forma de dizer. Na verdade, destratou. Melhor seria que o Vespertino adotasse a estratégia dos concorrentes e também optasse pelo silêncio. Talvez o constrangimento fosse menor. A cobertura do evento foi, para ficarmos no campo das boas maneiras, feita de forma intrafemural (isto é: nas coxas). O jornal sequer mandou um repórter ao local.

Porém, tal comportamento desleixado em relação ao Ilê Aiyê não desonra as tradições do A Tarde. Antigamente, aliás, as coisas eram muito piores. Na edição de 12 de fevereiro de 1975, quando o bloco desfilou pela primeira vez, o referido veículo já mostrava suas armas. Eis um trecho da matéria intitulada Bloco Racista, Nota Destoante. “Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye”.

Como atualmente é quase impossível repetir que “O Ilê Aiyê, apelidado de “Bloco do Racismo”, proporcionou um feio espetáculo neste carnaval”, resta louvar o bloco como “O mais belo dos belos”. Uma cobertura digna que é bom, nécaras. Nem ao menos um repórter para noticiar sobre a maior, gratuita e melhor festa pré-carnavalesca.

Tal desleixo, porém, não ocorreu com o evento comandado pela quituteira negra Dadá. Para cobrir a sua (lá dela) Feijoada Vip, o jornal mandou um repórter “ficar em cima do fato como carrapato”. Claro, lá haviam celebridades e outros descerebrados dispostos a pagar R$ 280 por um prato de comida. E foi feita uma grande cobertura. E foram publicadas importantes opiniões sobre a anfitriã, como a de, como o perdão da má palavra, Nizan Guanaes: “Ela é uma gênia”.

Ê Bahia. Como bem disse meu amigo  Luís Augusto, “quem deixa de ir ver gratuitamente a vigorosa percussão do Ilê e dá uma grana dessa numa porra dessa merece uma caganeira daquelas”.

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12 Respostas to “Dois negros, duas medidas”

  1. zeh de obrah Says:

    caganêra cum lícia fábio (ou dadá, não importa) rindo, xorando, vumitanu e xamando de “meu amor”du lado, isso sim é o que merecem!

  2. barroso Says:

    e o pior é que todos os anos é a mesma choradeira dos infernos de dadá. esse caça-níqueis ja ta enchendo o saco. e sem falar naquela breguice retada de entrar na festa num andor carregada pelos “negões” e usando aquele vestido ridículo!!! salve, franciel!!!!

  3. Véio Lolozeiro Says:

    Ligue não, menino Franciel, pois seus dias de ócio na Chapada podem ir pras cucuias.
    Faça como o sacana do Claudinho, que tá dividido entre duas excelentes opções pra esse Carnaval. Ele simplesmente não sabe se fica fazendo vigília pra José Alencar na porta do Sírio-Libânes, ou se pega um avião pra se esbaldar na Sapucaí no camarote da cerveja Belco (ele recebeu mais de 17 convites).
    Enquanto isso você fica por aí com os discursos de Brown e os lê, lês, ôs de Bell, que eu fico por aqui com o som dos berros dos bodes (bem mais profundos e sonoros).
    Quanto ao racismo, isso parece coisa de seu Antônio, um velho morador daqui.
    Ele já tá beirando os 90, é quase surdo, mas continua um racista de primeira.
    Outro dia sua filha tava tentando dizer a ele que agora isso dá cadeia.
    – “Pai, agora não pode mais chamar ninguém de preto, viu? É afro-descendente!”
    -“Como, minha filha?”
    -“Afro-descendente!”
    -“Afro-decadente?”
    -NÃO, PAPAI, AFRO-DESCENDENTE!”
    E ele, ainda sem entender muito bem, mas já com uma pontinha de chinfra nos cornos, finaliza:
    -“Acho bom eu chamar logo todo mundo de branquinho, né, minha filha, pra não ter nenhum problema!”

  4. Alberto Says:

    Franciel,
    acho que a maldade maior do texto de A Tarde da década de 70 está na tentativa de vincular o Ilê a ideologias esquerdistas numa época em que a ditadura militar descia a madeira nos opositores.
    abraços.

  5. canijah de moreré Says:

    Franciel Diamantino, o Vespertino fez isso em 1910. Vá nos anais de lá deles e verás (inst. hist. e geográfico – piedade).
    Uma cantora norte-americana veio a esta cidade fazer uma apresentação de blues (gênero musical afro-norte-americano, que deu início a vida musical daquele mundo). Viajou algumas semanas para ver alguns narizes retoecidos durante sua apresentação, no atual salão da reitoria da UFBa. No dia seguinte veio a resalva (mais ou menos dita ao meu modo) no referido Vespertino: “não entendemos muito sobre esse tipo de música, mas é certo que não precisamos mais ouví-la”.
    Caluca, nessa época você ainda era esperma (grande abraço, velho vaqueiro).

  6. Serbão Says:

    esse Luiz Augusto resumiu bem num aforismo daqueles. parece meu tio Oswaldão, aquele sem a menor sutileza.

  7. Guaxinim Says:

    Franciel, esse “Luiz” Augusto é meu pai? Se for, o nome dele é com “S”, rei. rs Mas, diante desse texto boca, tá mais que perdoado… Vlw.

    É seu pai, sim. E vou corrigir. Afinal, como dizia meu finado, é melhor matar o homem do que errar o nome.

  8. Desprovido Says:

    Pois é; destá, como diriam os beatles.

  9. Christiana Fausto Says:

    Sou fã incondicional do ingresia, não entro na net sem dar uma olhadinha para me divertir com o fino humor de Seu Françuel. Mas dessa vez foi melhor ainda: além de sempre muito bem humorado, esse texto foi irretocável, a começar pela grande sacada do título. Parabéns e obrigada por nos tornar melhores com a sua grande sensibilidade. Abraço!

  10. Vaqueiro Antenoro Says:

    Êêêêêêêêêêêêê booooooooooooooooooiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!

    Franciéu,
    Vc já sabe qual é o hit da terça de Carnaval que vem da terra dos Sioux, Comanches e Navajos?
    Eu vou enfiar bala no céu da sua boca,
    E aí?
    Super Tuesday!
    Tueday, Super tuesday!

    Êêêêêêêêêêêêê booooooooooooooooooiiiiiiiiiiiááááááááááááá!!!!!!!!!!!

    Velho, difudê.

  11. Guaxinim Says:

    Obrigada 😉

  12. Guaxinim Says:

    Franciel, soube por fonte irrefutável, que o PipoCab terá espaço cativo em seu blog. Até os deputados da AL foram convidados. Tomou conhecimento? Desse, até Dadá e o Ilê estão querendo correr (atrás?). rs

    Este grito de Carnaval aqui na CAB é uma das coisas mais esdrúxalas desta besta e bela província.

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