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Dois negros, duas medidas

J f, 2008

Vocês, céticos, podem até duvidar, mas a verdade é uma só: de quando em vez, o universo conspira para confirmar aquela melosa máxima, atribuída à vedete de Santo Amaro. Às aspas.  “É incrível a força das coisas quando elas têm que acontecer”.

Neste último domingo, por exemplo, na última apresentação do Ilê Aiyê antes do Carnaval, foi assim. As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. Sob um sol de mais de 40 graus, elas testemunharam o Sobrenatural de Almeida influenciando a performance dos músicos e das bailarinas do tradicional bloco afro. Enquanto Guiguio e Reizinho cantavam o tempo todo abraçados e afinados, as moças castigavam nas coreografias. (Uma delas parecia querer voar sobre o público). A entrega e a dedicação eram absolutas. Os tambores da Band’Aiyê tramaram uma inédita felicidade naquele insalubre recinto.

As cinco mil pessoas que lotaram o Parque da Cidade sabem do que estou falando. O restante da humanidade continuará sem saber, pois as vastas emoções de ontem tornaram meus pensamentos ainda mais imperfeitos. E, assim sendo, calo-me.

Porém, insistente, busco notícias nos jornais. Inútil. Nas páginas dos referidos, há espaços somente para a patacoada sobre o Rei Momo Magro – chibança que, definitivamente, já encheu o saco. Apenas um jornal, o A Tarde, tratou do show. Tratou é forma de dizer. Na verdade, destratou. Melhor seria que o Vespertino adotasse a estratégia dos concorrentes e também optasse pelo silêncio. Talvez o constrangimento fosse menor. A cobertura do evento foi, para ficarmos no campo das boas maneiras, feita de forma intrafemural (isto é: nas coxas). O jornal sequer mandou um repórter ao local.

Porém, tal comportamento desleixado em relação ao Ilê Aiyê não desonra as tradições do A Tarde. Antigamente, aliás, as coisas eram muito piores. Na edição de 12 de fevereiro de 1975, quando o bloco desfilou pela primeira vez, o referido veículo já mostrava suas armas. Eis um trecho da matéria intitulada Bloco Racista, Nota Destoante. “Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye”.

Como atualmente é quase impossível repetir que “O Ilê Aiyê, apelidado de “Bloco do Racismo”, proporcionou um feio espetáculo neste carnaval”, resta louvar o bloco como “O mais belo dos belos”. Uma cobertura digna que é bom, nécaras. Nem ao menos um repórter para noticiar sobre a maior, gratuita e melhor festa pré-carnavalesca.

Tal desleixo, porém, não ocorreu com o evento comandado pela quituteira negra Dadá. Para cobrir a sua (lá dela) Feijoada Vip, o jornal mandou um repórter “ficar em cima do fato como carrapato”. Claro, lá haviam celebridades e outros descerebrados dispostos a pagar R$ 280 por um prato de comida. E foi feita uma grande cobertura. E foram publicadas importantes opiniões sobre a anfitriã, como a de, como o perdão da má palavra, Nizan Guanaes: “Ela é uma gênia”.

Ê Bahia. Como bem disse meu amigo  Luís Augusto, “quem deixa de ir ver gratuitamente a vigorosa percussão do Ilê e dá uma grana dessa numa porra dessa merece uma caganeira daquelas”.

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