Archive for dezembro \26\UTC 2007

A Casa (nunca) Cai

J f, 2007

A Bahia pode ser acusada de tudo – menos de falta de respeito às suas tradições. E uma das tradições mais caras (às vezes, no sentido literal) a esta província é submeter-se a comunicadores (quase escrevo achacadores) semi-alfabetizados, pretensos defensores da coletividade, especialmente da camada de baixa renda, metidos a valentões e com um senso ético bastante elástico.

Muito provavelmente, o triunfo da referida espécie nestas plagas se deve à formação da, digamos assim, civilização baiana – que é essencialmente oral e ágrafa. Por isso, aqui viceja (receba, sacanas, um viceja pelas caixas dos peitos) a ensurdecedora mania de sempre ganhar no grito. Na Bahia, os que tentam argumentar já começam a peleja em sonora desvantagem em relação àqueles que têm um bom timbre de voz.

Mas, estes prolegômenos pretensamente erudito-analíticos servem somente para situar o desinformado ouvinte sobre a verdadeira origem desta primeira polêmica do verão baiano envolvendo Zé Eduardo e a TV Aratu.

Independentemente se o distinto foi realmente flagrado com os lábios na botija, uma coisa é certa: os futuros desdobramentos (desculpem-me a redundância, mas ela é necessária) das nebulosas transações nos remete ao passado, mais exatamente à década de 40 do século XX.

Naquela era, pontificava na Bahia José Gomes. Assim como seus sucessores, ele possuía uma irresistível atração pela bizarrice e não menor amor ao alheio. Mas, nécaras de furto puro e simples. Algumas de suas caraterísticas, que o tornaram o pai da matéria e inspirador dos atuais protagonistas da mídia baiana, são assim reveladas por um de seus biógrafos, Mark J. Curran, no livro Cuíca de Santo Amaro: Controvérsia no Cordel.

Ouçam.

“Uma das técnicas de Cuíca para obter histórias sensacionalistas era a extorsão jornalística. Claro que esta palavra, tão forte e direta, nunca foi usada pelo poeta. Porém, é certo que obtinha informações de natureza escandalosa e, para não publicá-las, exigia pagamento dos interessados. Ou publicava-as no folheto “quente” do momento, mas sem revelar nomes, apresentando somente uns poucos detalhes e insinuações. Assim, oferecia às pessoas interessadas a oportunidade de comprar a tiragem inteira da história que estava em preparo, história já prometida a um público curioso, história a ser espalhada às rua (sic) da Bahia”.

Além do descrito acima, nosso herói também complementava o orçamento fazendo denúncias por encomenda ou usando a milenar técnica da bajulação.

Qualquer semelhança com os métodos atuais não é mera coincidência. Como também não é acaso a aventura na (lucrativa) atividade política trajando o demagógico figurino de Pai dos Pobres.

Escutem um trecho do que Ele, o Tal, disse a respeito no panfleto intitulado Porque candidatei-me para vereador

“Por causa deste povo

muito tenho sofrido

por defender o povo

sempre fui perseguido

com toda a perseguição

tenho tudo combatido”

Pois muito bem. Para que vossos maltratados sacos não transbordem, abstenho-me de falar sobre as dezenas de seguidores do nosso “Gregório de Matos sem gramática”, conforme definição do já citado brasilianista Mark. Apenas encerro lembrando que Cuíca virou um personagem da vida cultural de Soterópolis.

Entre outras estripulias, fez o papel dele mesmo no filme A Grande Feira, de Roberto Pires; serviu de inspiração para Dias Gomes criar Dedé Cospe-Rima, em O Pagador de Promessa, além de ser citado por Jorge Amado em Bahia de Todos os Santos e perambular em Tereza Batista cansada de guerra, A morte e a morte de Quincas Berro D’Água e Pastores da Noite. Aliás, o marido de Zélia, sob o pseudônimo de João Garcia, assinou a primeira reportagem nacional na Revista Diretrizes, em 1943, sobre o distinto, que neste 2007 completaria 100 anos.

E, por tudo isso, arrisco uma profecia: a casa de Zé Eduardo não cairá. A folclorização na Bahia imuniza gente desta espécie.

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O Ingresia respeita (o filho de) Januário

J f, 2007

Desde o longínquo ano da graça de 1989, jurei que iria reverenciar o 13 de dezembro até o fim dos tempos ou do blog – o que dá no mesmo.

Acontece que, por desleixo ou mardade das pior, quase esquecia de cumprir esta promessa que fiz à Nossa Senhora dos Oito Baixos.  

Porém, como o dia está indo, quase findo e o tempo urge e ruge e não posso contrariar minha santa, deixo com vocês esta confissão feita em 2005.

Ouçam.

O Ingresia respeita (o filho de) Januário

Ainda era minino pequeno, coisa de sete, oito anos, quando me tornei devoto. Quem me apresentou ao Salvador foi meu pai. Aconteceu algo tipo o estalo de Vieira. Não sei explicar com mais detalhes. Só sei que foi assim. E, depois daquela conversão sob o céu que me protegia (e castigava) no semi-árido, nunca mais me desviei do sagrado caminho. De lá pra cá, é óbvio, desocupado como é, o Cão já atentou diversas vezes, prometendo insinuantes estradas de perdições às minhas velhas e desbotadas alpercatas. Porém,  firmes e religiosas pisadas não saem da rota por seduções vãs. Questão de fé.

Calma, minha senhora, toda esta ladainha nostálgica e metida a lírica é por uma boa causa: no último dia 13 de dezembro, entramos no ano da graça 93 DLG (Depois de Luiz Gonzaga). E datas santas existem para serem respeitadas. O Velho Lua completou mais um ano de vida. Sim, de vida. Vira esta boca pra a maré de vazante, incréu. Quem morreu foi Elvis, o irmão bastardo de Gonzagão no Mississippi.

Mas, já que descambei para as bandas do estrangeiro, lembrei-me agora de mais uma coisa: a apropriação indébita do Forró pelos ingleses. Poizé. Para tomar os pertences dos outros, os imperialistas inventam as versões mais fantasiosas – vide aquela conversa fiada de que a palavra mágica surgiu quando os engenheiros britânicos estavam construindo a ferrovia Great Western e realizavam folias For All e etc e coisa e tals.

Nero ar.

O velho Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, já ensinou: Forró vem de forrobodó, que os escravos africanos usavam para tratar das festas populares nas quais se dançava diumtudo, como diria os xibungos de hoje em dia e…epa, alto lá!. Não deixarei que os baitolas mudem o rumo desta prosa ruim. O fato é que Forró é sinônimo de baile ordinário, sem etiqueta. Só não venha pra cá com estes peitos moles regionalistas porque nesta Ingresia não cabe louvação às raízes ou a purismos bobos. O Forró não é inglês, mas é universal.

E, na verdade, na verdade (cacoete muito usado pelos advogados quando vão começar a mentir), escrevi todas estas bobagens acima apenas como um preâmbulo (longo, muito longo, é vero) para tentar salvar os pecadores que ainda estão na escuridão. O objetivo era apenas indicar este linque www.gonzagao.com.br/multimidia.php e mandar você clicar em cima de Forró de Mané Vito. Esta chibante canção, gravada em 1949, é primeira na qual aparece a palavra Forró pela primeira vez na história.

E mais não digo porque isto aqui não é o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nem muito menos o Correio Repórter. Agora, adiante o lado e vá ouvir logo os sons e as palavras de Gonzagão, que salvam e libertam. Garantia certa de lugar no céu. Bote fé”.