Archive for novembro \30\UTC 2007

Uma tragédia, dois pontos de vista

J f, 2007

Noite de 25 de novembro. Preparava-me, ansioso, para fugir da poluição e da cerveja quente de São Paulo quando soube do desmoronamento na Fonte Nova. Mesmo tendo consciência de que era uma tragédia anunciada, fiquei perplexo. E perambulei pelos lotados corredores do Aeroporto de Guarulhos até que vi um adolescente com uma camisa do Bahia. Inadvertidamente, relatei o sinistro acontecimento ao garoto, que, ato contínuo, mudou o semblante e ficou completamente atônito.

Voltei para Salvador com o juízo aperreado por causa do rosto transtornado do menino, que deve ter a idade de meu filho. Não deveria ter sido tão imprudente, mas não deu para segurar o impulso. As mortes estavam relacionadas com uma de minhas mais intensas paixões, o futebol. E foi sob o mesmo impulso que, ainda na segunda-feira, escrevi um texto (com o qual concordo totalmente e que escreveria novamente) sobre a (ir) responsabilidade dos governantes.

Este texto foi contestado, em alguns pontos e de forma educada, pelo jornalista João Paulo, ex-chefe da Assessoria Geral de Comunicação do governo passado. Já o havia publicado, e feito as observações que entendia devidas, na caixa de comentários. Mas, depois compreendi que, pela importância, tal debate não poderia ficar escondido na referida caixa de comentários. Por isso, trago-o para a página principal – até porque o mesmo acabou sendo ofuscado por um outro texto sobre o mesmo assunto que publiquei logo em seguida.

Abaixo, os argumentos de João Paulo em itálico e os meus em negrito.

Desculpe, Franciel, mas tenho que, por dever de ofício, refutar uma informação contida no início de seu texto. A ação protocolada no início de 2006 pelo Ministério Público nunca chegou oficialmente à Sudesb no governo passado, pois, além de não ter sido despachada pela juíza, ela foi ajuizada numa vara (sem trocadilho, por favor) errada – na do Direito do Consumidor e não na de Fazenda Pública, a responsável por despachar contra o Estado.

Mesmo assim, e sabendo da situação do estádio, a Sudesb investiu entre 2005 e 2006 cerca de R$ 1,5 milhão em obras de recuperação na Fonte Nova. Além disso, em setembro de 2006 (antes de perspectiva de uma derrota eleitoral (pois acreditávamos em pesquisas), a Sudesb encomendou um estudo completo para basear os investimentos na recuperação do estádio.

Como a eleição foi perdida o estudo foi encaminhado para o atual governo. A veracidade disso pode ser atestada pelas palavras do próprio secretário Nilton Vasconcelos ontem no Jornal da Globo que adimitu que poderia ter investido os R$ 3 milhões apontados pelo estudo, mas preferiu outro tipo de medida pois pensava já na Copa de 2014.

Claro que a Fonte Nova estava em condições ruins, tanto que o antigo governo limitou a capacidade de público e interditou a área da Bamor.

Mas dizer que nada foi feito não corresponde com a verdade. Mesmo sem ter recebido qualquer ordem judicial, o governo anterior tomou providencias para evitar tragédias, contratou estudo para realizar obras a partir desde ano e, como perdeu as eleições,encaminhou esse estudo ao chamado governo de transição.

obrigado pela atenção de quem consiguiu ler este texto até o final.

abs

João, quase que desnecessário registrar o respeito que tenho por você. Mas, registro para que algum gaiato não faça um uso perverso desta sincera resposta que segue abaixo.

Seguinte.

Acho, francamente, que esta história de competência de varas é filigrana. Vi a Juiza Lícia Pinto Fragoso Modesto, da Defesa do Consumidor, tirar o corpo fora com o mesmo argumento. Não concordo. Lembro, inclusive, que a ação do MP foi muito noticiada à época – não sem algum deboche dos poderosos cartolas, jornalistas, radialistas e outros mais ou menos cotados. (Depois, pesquisarei e colocarei as matérias aqui).

Mas, acho que as ações drásticas e necessárias deveriam ser tomadas muito antes do dia 19 de janeiro de 2006. A Fonte Nova agonizava há séculos. Tragédias não aconteceram por obras do acaso. Não concordo nem compreendo que o Estado precisasse ser informado sobre a situação crítica para tomar as devidas providências. É óbvio que, não só por ser frequentador assíduo do velho estádio, mas também por dever de ofício, sei dos investimentos e reformas feitos – mas acredito que são (e foram) apenas paliativos. Foi isso que quis dizer no texto. E dizer também que o descaso governamental (do atual e dos anteriores) é simbólico de nossa cultura de remendos, como bem disse meu amigo Claudio Leal.

Abraços. 

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Os profetas do acontecido

J f, 2007

A capa desta edição do último dia 27 do Jornal A Tarde é daquelas que já nascem antológicas, pois consegue um feito raro no jornalismo: emociona, comove, informa e denuncia sem cair no sensacionalismo.

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Acontece que alguns dos substantivos da referida primeira página servem para o próprio Vespertino. (E digo isso não por causa do espírito-de-porco que, de quando em vez, se apodera deste picuinhento locutor). A desmoralização está na edição do dia 23, apenas dois dias antes da tragédia na Fonte Nova. Vejam a capa do caderno de Esportes e logo abaixo a mesma em detalhes.

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FIM DE JOGO.

Tragédia na Fonte Nova revela a (falta de) alma dos governantes baianos

J f, 2007

Só os idiotas misturam futebol e política – e eu sou um idiota.

Então, em verdade vos digo: Nesta tragédia na Fonte Nova é impossível separar estes dois campos da atuação pública. Uma coisa é uma coisa, é uma coisa, é uma coisa. O atual e degradante estágio deste esporte, que é nossa mais intensa paixão, é conseqüência direta da forma macabra de (des) governo que nos infelicita há séculos. E que, registre-se e publique-se, não mudou absolutamente nada até agora no governo de Jaques Wagner.

Portanto, além de chorar os mortos, a Bahia deve também estar em prantos porque este sinistro acontecimento revela um outro não menos grave. Qual seja: ao invés de romper com o ancien régime, os novos gestores prosseguiram com o tradicional (e macabro) desleixo em relação ao bem-estar do cidadão/torcedor.

E nem é preciso invocar os séculos de desmandos – basta retornarmos ao início de 2006. No dia 19 de janeiro deste referido ano da graça, a promotora Joseana Suzart ajuizou ação civil pública solicitando a interdição do local, que, não por acaso, leva o nome do governador Octávio Mangabeira, aquele que falava sobre os precedentes dos absurdos na Bahia. Os antigos governantes nada fizeram.

Pois muito bem.

Ao invés de dar um basta na situação, interditando definitivamente o estádio até a completa solução dos problemas, o atual mandatário também cedeu aos apelos dos cartolas, radialistas e outras almas sebosas. Mais que isso. Optou-se pelo antigo caminho da maquiagem, com uma reforma malamanhada e intrafemural (ou seja, nas coxas) – e nécaras de mudanças estruturais de verdade (tal situação nos outros setores não é mera coincidência). Mas, esta enrolação específica foi desmascarada nesta foto da Agência Estado.

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É vero e óbvio que o simples conserto da Fonte Nova não mudaria os péssimos índices de analfabetismo, saúde e outros herdados dos mandantes anteriores e que não podiam ser resolvidos por decreto. Mas, quando nem no simbólico palco das lutas pebolísticas há indicativos de mudanças, é melhor tirarmos o time de campo.

Lazzo Matumbi, a alegria da cidade

J f, 2007

Aprendi com o menino Norman Mailer que homem que é homem não dança – sagrado ensinamento que só renego quando está na vitrola a voz suingada e envelhecida em barris de maresia de Lazzo Matumbi.

E no último domingo, mesmo sob o sol dos 600 DEMÔNHOS no Parque da Cidade, não foi diferente. O negão espantou a ressaca do Dia de Finados e botou este velho locutor e outros defuntos pra balançar o esqueleto. Até o Rei Perneta entrou na ciranda com uma versão regueira de Eu Te Amo, te amo, te amo.

Empolgado pelo ritmo dançante, quase cometo um deslize: pensei em começar este novo parágrafo reclamando da indecência de existir tão poucas apresentações de Lazzo neste infernal calendário baiano. Porém, já não tenho mais idade para me indignar com os absurdos desta terra. Assim, o que verdadeiramente provocou espanto foi o anúncio de que o show completo  estaria no site do cantor no day after.

Ao ouvir tal novidade, perguntei aos meus maltratados botões: será que, finalmente, o menino Lázaro Jerônimo Ferreira decidiu que já passou da hora de conquistar o mundo? E fui correndo conferir no http://www.lazzomatumbi.com.br. Mas, a boréstia lazzariana nunca engana. Até o final da noite de ontem, nécaras, nem uma nota musical.

Lazzo, que é disparado o maior e melhor cantor da Bahia, não tem vocação para a grandeza. De quando em vez, ele inventa, inclusive, de contaminar o repertório com algumas baladas mela-cueca, como a dizer que aplausos e glórias contínuas não lhe interessam. Algo como a síndrome de Elis Regina, aquela que possuía uma voz sublime e um repertório muitas vezes deplorável.

É vero que o caso de Lazzo é mais grave, pois lambuzado na ancestral espinha mole do dendê. No início da década de 90, por exemplo, ele participou de uma turnê na Oropa, França e Bahia abrindo shows para Jimmy Cliff. Tal fato,  provocou a seguinte reação do poeta Ildásio Tavares : “Isto é um acinte: Jimmy Cliff é quem tem que abrir show para Lazzo”.

Foi a primeira, única e última vez que quase concordei com Ildásio.

Depois que me raciocinei todo, dei razão à falta “de vocação para a grandeza” do ex-cantor do Ilê Aiyê: Este mundo besta não merece o seu talento. E talvez sua linda glória seja continuar sendo só, e fundamentalmente, A Alegria da Cidade.