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Nosso Farsesco Olhar Estrangeiro

J f, 2007
A Cidade do Salvador, que tem um dos mais altos índices pluviométricos do Brasil, com uma média anual superior a 1900 mm, foi vendida, literalmente, como uma sucursal do paraíso, onde faz sol o ano inteiro.

Nada de anormal que os estúpidos turistas (desculpem a redundância) comprem esta malamanhada versão. Esta ordinária raça, sabemos, compra qualquer coisa. E, se aqui aterrisam sob raios e trovoadas, a culpa deve ser de algum orixá que não lhe foi com os cornos ou com a sua epiderme amarela, de menino parmalat. Então, inventa-se mais duas ou três crendices para enganar os trouxas – e tá tudo lindo.

Até aí, tudo bem, como diria o filósofo Domingos de Souza.

O problema é que, de tanto ouvir esta ladainha, o próprio baiano passou a acreditar nas patacoadas propagandísticas. E as rotineiras e inconseqüentes chuvas que desabam sobre esta província parecem-nos apenas um comercial mal feito. Aqui é sempre, sempre, verão, minha nega.

Definitivamente, o baiano vestiu a camisa listrada das bahiatursas da vida e saiu por aí em um ridículo processo de automacaqueação. De tanto ser visto de forma exótica pelo olhar estrangeiro, os nativos passaram a se ver assim também. O que restava de beleza e irreverência parece estar sendo levado pela enxurrada de imbecilidade.

E, como não poderia deixar de ser, esta representação do alheamento chegou às telas de cinema. A Bahia, em Ó Paí Ó, é caricaturizada de forma risonhamente constrangedora. Mas, ou talvez exatamente por isso, o filme é o maior sucesso de bilheteria dos últimos tempos em Soterópolis.

Os baianos, cada vez mais, se reconhecem na própria farsa.

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