Archive for março \29\UTC 2007

Um brinde a esta Ordinária

J f, 2007


A árdua pesquisa durou quase uma semana, mas valeu à pena. Enfim, consegui chegar a um número exato. Do desembarque de Tomé de Souza até as 9h14 da madrugada desta quinta-feira já foram escritos 129.748 textos falando que Salvador é uma cidade cheia de contrastes.

E se todos assim procedem, não seria eu que desta lei da natureza deveria ter isenção. Então, recebam: Salvador, que hoje completa 400 e não sei quantos anos, é uma cidade cheia de contrastes.

Assim, à moda dos escribas que aparecem à mancheia nestas épocas de efemérides, também apresentarei meus two cents sobre as contradições de Soterópolis.
Mas, podem ficar tranquilos. Não cederei às tentações do parnasianismo-nagô-demagógicas, tão em voga por estas plagas. Nada de lamentos do tipo “Oh, dividida Cidade da Bahia, tão bela para os turistas e tão brava fera para seus filhos despossuídos”.

Nécaras, não e nécaras.

Aqui, falarei do que realmente importa: a inacreditável capacidade dos moradores desta província de superar as adversidades; de transpor os mais complicados obstáculos em busca de seus sonhos; de… NÃO!!!  Chega de leros melodramáticos e vamos a um fundamental exemplo.

De acordo com o estudo do Sistema de Monitoramento de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis (Vigitel), Salvador é a capital com maior número de consumidores de cangibrina. Esta alvissareira notícia foi divulgada pelo Ministério da Saúde no último dia 14.

(Palmas, por favor)

Aos incréus e céticos que não aplaudiram, este título de cidade mais embriagada do país pode parecer de somenos importância. Porém, em verdade vos digo: esta é uma conquista que se reveste de alto valor, principalmente quando levamos em conta o sofrimento que os apreciadores da mardita enfrentam para apreciá-la neste deserto de bares e idéias.

E, sem mais delongas, eis o fulcro do problema, a indagação fundamental: como uma cidade que não tem oito budegas dignas deste nome (e uma cidade que não possui oito butecos decentes não tem coração) consegue abrigar tamanha quantidade de cachaceiros? Como, como? Onde estais, Senhor do Bonfim, que não respondes?

Realmente, Salvador é cheia de misteriosos contrastes, como sopram os anúncios da Bahiatursa para enganar os turistas, otários e afins.

Garçon, mais uma dose. Apesar dos seus poucos bares, vamos brindar em homenagem a esta Ordinária

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Ivan, El Terrible

J f, 2007

O jornalista Ivan de Carvalho, que assina uma coluna na gloriosa Tribuna da Bahia, escreveu um artigo esta semana sobre o problema da segurança pública. No texto, ele citava esta maltratada Ingresia. O material, porém, não foi publicado.

Calma, crianças, larguem a caneta agora mesmo. Pelo amor de Jehová (de Carvalho), esqueçam esta bobagem de manifesto em prol da liberdade de expressão ou de qualquer outra ficção deste gênero. Façam outro favor e economizem naquela ladainha de “Sêo Françuel, estamos com o senhor para o que der e vier”.

Estão comigo? comigo, não, violão. Sou casado e minha mulher é ciumenta. E desconheço coisa mais constrangedora do que solidariedade em caixa de comentário de blog. Aliás, foi exatamente por entender que blog é coisa sem importância que solicitei a Ivan que não maculasse sua coluna com citação do Ingresia. E ele aquiesceu. (Afinal, como não diria a menina Gertrude Stein, um blog é um blog, é um blog é um blog. Apenas).

Em contrapartida, Ivan me solicitou que também não citasse seu nome aqui neste insalubre recinto. Mas, como sou espírito de porco, não obedeci – até porque certa feita travei um diálogo com Ivan que queria tornar público.

Antes de contar o referido diálogo, porém, é preciso contextualizá-lo, falando um pouco sobre a trajetória de Ivan.

Seguinte.

No início da década de 70, quando toda a redação da Tribuna da Bahia, comandada por João Ubaldo Ribeiro (Sim, já existiram diretores de redação na Bahia alfabetizados), era composta de esquerdistazinhos, El Terrible já professava sua fé na mão invisível do mercado e na intransigente oposição ao marxismo. Melhor dizendo, era um direitista, no linguajar dos esquerdistas. Era, vírgula, continua sendo. Além do liberalismo, Ivan acredita em outras coisas exóticas e invisíveis, como Deus e discos voadores.

Aliás, sua fisionomia já é a de um próprio ET.

Pois muito bem. Certa feita, encontro-o com as feições mais pálidas do que de costume, e pergunto: “O que aconteceu, Ivan?”. Com a voz fugidia, ele responde: “Minha filha está grávida”. Assustado, pergunto: “E o que foi?”. Sem mover uma ruga, ele arremata: “Pica. Só pode ter sido pica”.

Moral da história: quando converso com direitistas com senso de humor, meu raciocínio torna-se mais ágil do que a zaga do Bahia.

A Parteira da História

J f, 2007
Na quinta-feira de cinzas, prostrado em uma budega na heróica Chapada Diamantina, uma vez mais eu buscava o impossível: curar a ressaca que me persegue por ancestrais folias.
Investido de minha fantasia de testemunha ocular da história, que os maledicentes apelidam apenas de “abadá de entrão”, escutava o proprietário do recinto bradar contra a violência deste último Carnaval de Salvador – festa que, soube em seguida, ele não passou nem perto.
E foi então que me lembrei de Millôr Fernandes e Raimundo Varela, não necessariamente nesta ordem.
Flash Back. Corta para o meio-dia de terça-feira de Carnaval.
Com o juízo aperreado por substâncias não permitidas pela Constituição Federal e por outras drogas ainda mais fortes, como as canções de Durval Lelys e os textos de Taço Franco, liguei a TV para ver e ouvir as análises abalizadas do impoluto apresentador da TV Record, que gritava, babava e batia na mesa: “Este é o Carnaval mais violento da história”.
Como sei que um pouco de matemática comparada e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, fui aos números. Até aquele instante do “Carnaval mais violento da história”, registrava-se dois mortos no circuito momesco. Com o falecimento de Deise Ramos Santos, no último domingo, dia 4, o saldo oficial subiu para três.
Pois muito bem. No pacífico Carnaval de 1974, quando ACM era governador (Não tem jeito. É um carma. Tenho que falar do homem de alguma forma), morreram 12 pessoas, quatro vezes mais que o deste 2007, conforme registra o jornal A Tarde de 27 de fevereiro daquele ano. Isso sem contar que a população atual é o dobro daquela época. De acordo com o IBGE, a previsão para o início de 2007 era de 2.714.018. Em 1974, com sabemos, não houve censo, mas dá para ter uma idéia, analisando os censos de 1970 (1.007.195) e 1980 (1.502.013).
No entanto, segundo Varela e o dono do butequim da Chapada Diamantina, Carnaval violento foi este, não aquele ou aqueles outros.
E é aí que entra Millôr Fernandes: “Opinião pública é aquela que se publica”.
Agora, em Soteropólis, só se fala sobre o aumento da violência. Uma histeria dos seiscentos diabos.
E hoje não vai nada no Jornal A Tarde? Vai, sim senhor.
O Vespertino, definitivamente, não toma jeito. Na chamada de primeira página fala da “escalada” da violência e na manchete da página 4 diz o seguinte: “Salvador está abalada com 216 homicídios em 2 meses”.
Sem dúvida, é muita morte em tão pouco tempo. O problema é que os números não indicam “escalada” nenhuma. Ao contrário. No mesmo período do ano passado, conforme dados publicados no mesmo jornal, ocorreram 240 homicídios, o que representa uma redução de exatamente 10%.
Moral da história: esqueçam o que eu disse ontem. A Tarde acredita que jornalismo é ciência exata, ma non troppo.