Archive for fevereiro \05\UTC 2007

Contra mitos não há argumentos

J f, 2007
Este barulhinho bom que agora embala seus sonhos é exatamente o que vocês estão pensando: o farfalhar das saias do mulherio de Soterópolis e adjacências. Poizé. Apesar de ainda faltar mais de um mês para Chico Buarque desembarcar na cidade, elas já estão ensandecidas. E, entre outras aleivosias, justificam tal alvoroço invocando os treze anos de ausência do referido.
Às desmemoriadas, poderia argumentar que não faz tanto tempo assim; que, há exatos seis anos, ele estava cantando (cantando é modo de dizer) no tenebroso Festival de Verão com seu genro, Carlinhos Brown. Mas não baixarei o nível. Sei que é feio ficar relembrando lambanças em plena segunda-feira.
O plantão aqui é rigoroso, sopa de tamanco, mas não é apelativo. E não me afastarei um milímetro da sobriedade que marca a política editorial desta intimorata Ingresia. Assim, é óbvio que não chamarei o cidadão de fanho. Nada disso. “Fanho” é politicamente incorreto. Ele é apenas “portador de indigência na voz”, como diria meu amigo Beto Bahia, o Cantor Xêta.
Mas, o fato, como diria o repórti Marconi de Souza, é grave. Muito mais grave.
Seguinte.
Ao ser apanhado em flagrante delito quando do lançamento de Fazenda Modelo, que o crítico Wilson Martins classificou de “recozimento de Revolução dos Bichos”, Chico Buarque largou a seguinte, em entrevista ao Pasquim em 1975. Às aspas: “Não li mesmo. (ri) Agora não vou ler. Eu conhecia o Orwell de nome, de “1984“.
Meus irmãos, em verdade vos digo: não há hipótese de, no ano da graça de 1975, um rapaz bem criado, de bons modos como Chico Buarque, não ter lido o clássico de George Orwell lançado 30 anos antes.
Aliás, entendo que esta tentativa de absolvição por desconhecimento é uma falha muito mais grave do que o desmedido amor ao alheio, travestido de plágio criativo.
Porém, não pensem que me iludo. Entro nesta batalha apenas para cumprir tabela. Sei que esta é uma luta vã, pois as pessoas preferem a imbecilização admiratória (dá-lhe Odorico Parraguaçu!) ao esclarecimento.
E elas nunca perceberão que registro este episódio em defesa de Chico Buarque. Sim, em defesa. Afinal, mostrar que ele também age (raras vezes, é verdade) como um canalha é restituir-lhe uma dimensão humana que lhe foi furtada pelos fãs ensandecidos. É torná-lo maior, se é que isto é possível.
Anúncios