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Vamos viver de brisa

J f, 2006

Se, como sentenciava o bardo William Burroughs, a linguagem é um vírus, o discurso do alcaide de Soterópolis João Henrique está com infecção generalizada.

E a doença não é uma metáfora.

Ouçam, em negrito, o que ele disse sobre a entrega da Orla Marítima à especulação imobiliária, travestida de liberação do gabarito. Às aspas: “Agora é preciso ter coragem, uma tomada de decisão para algo que devia ter sido feito há 20 anos e para fazer com que as pessoas parem de se indagar por que Salvador é a única cidade do Nordeste que não acordou para o potencial de riqueza de sua Orla“.

Estas 49 palavras do prefeito são muito menos inofensivas do que aparentam. Há, aí, tantas falácias quanto nas propagandas da Bahiatursa para enganar turistas, otários e afins.

Que história é esta, prefeito, de que “é preciso coragem” para se render aos barões da construção civil? Esta ladainha de valente a favor, que durante milênios foi usada por ACM, não cola mais.

É preciso coragem, João, para outras coisas. É preciso coragem para lutar contra os que, nesta bela, besta e maltratada Cidade da Bahia, resistem em abrir mão de seus seculares privilégios. É preciso coragem, João…Aliás, não. Chega de dicas. O senhor sabe muito bem para que é preciso ter coragem.

E outra. Onde é que está escrito que a Orla de Salvador tem que ser igual à das outras capitais na, como é mesmo?, exploração do “potencial de riqueza“? Nécaras. O inverso é o certo. A cidade tem é que preservar o que ela ainda tem de singular. Nada de sombreamento nas praias e outros confortos do progresso. Por que temos que macaquear as miamis da vida?

Aqui mesmo, em Amaralina, em que pesem os canhões na paisagem, é direito inalienável continuar usufruindo desta brisa que nos beija e balança amorosamente. Sim, prefeito, amorosamente. A questão, para além dos argumentos técnicos, é de preservação também do patrimônio afetivo.

Até o outro João, o valentão da canção de Caymmi, que a todos intimidava, sabia que não era preciso dormir pra sonhar “porque não há sonho mais lindo do que sua terra“.

E nesta batalha contra a invasão da Orla não pode faltar o afeto. Só o amor pela cidade poderá barrar esta investida nefasta. E um governo que se pretende democrático e popular tem o dever de interferir a favor do afeto – e não do poder econômico.

A propósito, lembrei-me de outro crime contra os baianos e um de seus maiores patrimônios, o Carnaval, que começou a ser perpetrado em nome da tal modernização.

No início dos anos 90, Lídice da Mata, a quem quero muito bem, era a prefeita de Soterópolis quando caiu no conto do vigário da profissionalização da folia. Na ocasião, até o trajeto da gloriosa Mudança do Garcia eles, os modernizadores, com o aval dela, quiseram alterar, impedindo que a fuzarca desfilasse na passarela do Campo Grande.

O resultado é que hoje, espremidos mais ainda entre cordas e camarotes, estamos em busca do tempo perdido.

Desta vez, porém, assim como a menina Dolores Ibarruri fez no histórico 19 de julho de 1936, bradaremos: Na Orla de Salvador, no Pasarán.

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