Archive for março \27\UTC 2006

O Rei ficará no mesmo lugar

J f, 2006

Não testemunhei a tragédia – minha religião não permite que eu veja  TV -, mas a menina que trabalha lá em casa viu. E ficou chocada: “Sêo Fransuel, como é que fazem uma desgraça desta? E ainda passam no Fantástico”.

Aos que ainda estão de boréstia, viajando na gloriosa ressaca nesta segundona, informo logo: a revolta da cidadã era com um tal de Tributo a Odair José (Eu vou tirar você desse lugar, Allegro Discos), que juntou um bando que hereges profanando as palavras do Rei. E olha que a moça que labuta no meu lar é uma pessoa das mais compreensivas. É, inclusive, autora de uma das melhores definições metafísico-filosóficas sobre o ser humano e a tolerância. Toda vez que começo a me aborrecer com alguém, ela contemporiza: “Liga, não, Sêo Fransuel, o ser humano é assim mesmo”. E depois, larga a seguinte: “O ser humano, hunfp, ai, aí“.

É, realmente, o ser humano, hunfp, ai, ai.

Como é que, pergunto eu agora, fazem uma desgraça desta? Por que diabos tentar dar um tique, um toque moderno a Odair? Não cabe. O bardo goiano num é moderno, é eterno, perene.

Por isso, mesmo sem nenhuma vocação para dedo-duro, sou obrigado a denunciar os pilantras (Tudo em caixa baixa, maestro): paulo miklos, suzana flag, pato fu, columbia, mombojó, zeca baleiro, mundo livre s/a, suíte super luxo, shakemakers, leela, sufrágio, picassos falsos, poléxia, jumbo elektro, arthur de faria e seu conjunto, terminal guadalupe, volver e los pirata.

Destes traidores acima, o único que talvez pudesse cantar algo do Monstro Sagrado seria Wander Wildner. Porém, até o gaúcho, que está fora da maldita coletânea, ainda precisa comer muito feijão para amarrar a chuteira de Odair. Ou melhor, trocar as cordas de seu plangente violão.

O que estes rapazes e moças, alegres e deslumbrados, não entendem, nem nunca irão entender, é que jamais Odair José sairá de onde está. E o lugar do Rei é na vitrola de um bar pé rapado, tal e qual o de Pedin, na República Livre e Independente da Rua Tertuliano Cambuí, no árido sertão de Irecê.

Nestes tipos de recintos, nas velhas mesas de Sinuca, a vida está sempre pela bola 7. Ao som de uma canção odaírica, a dor de amor não é graça – é à vera. Afinal, felicidade não existe.

O resto é barulinho moderno de guitarras distorcidas – diversão de menino amarelo criado em playground.

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Sob o sol que nos protege

J f, 2006

Faraós de Itapuã e da Barra, os dois guias que, desde sempre, iluminam as múmias na Capital Baiana.


Assim, do nada, minha amiga Sora largou a seguinte: “Ah, que saco! Igualzinho às mulheres bonitas e gostosas, Salvador se confia demais em seus atributos. Por isso é que tá deste jeito”.

Palavras da Salvação, gritarão os afoitos. Mas, digo nécaras.

Como de praxe, não concordo com nada do que ela (Sora, não a cidade) me diz. E, machismo à parte, nem acho pecado se fiar em beleza e gostosura.

Mesmo assim, decidi realizar um detalhado estudo sócio-político-econômico-antropológico e cultural para saber o porquê da Cidade da Bahia “tá deste jeito”. Enquanto pesquiso para concluir tão portentosa obra analítico-científica, apresentar-lhes-ei uma hipótese – não sem antes apelar às já tradicionais pseudo-erudições, obtusos caminhos pelos quais esta Ingresia jamais deixará de trafegar.

Pois muito bem. Voltemos, portanto, à Grécia, mais precisamente ao Livro VII da República, de Platão. Pronto? Então, agora invertam a equação do Mito da Caverna. Eis o problema de nossa vetusta urbe: Estamos aprisionados pela claridade.

Tem alguém aí que ainda duvida?

Pois para os que acham que invento teorias sem nexo, recorro à minha gloriosa sabença de almanaque e sapeco mais esta, retirada diretamente da histórica edição de 27 de abril de 2001, do Correio da Bahia: “O índice de luminosidade de Salvador chega a 80%, perdendo apenas para a capital grega, Atenas”.
(maestro, linque para os incréus: http://www.correiodabahia.com.br/2001/04/27/noticia.asp?link=not000024846.xml)

É esta sua luz, Salvador, que nos cega. E nos faz aceitar e conviver com suas tantas e tamanhas iniqüidades e belezas.

P.S – 1 Por pura pirraça (ou seria inveja?), a natureza armou uma pequena e doce vingança. No dia 29 de março, quando Soterópolis completará 457 anos, haverá um eclipse solar.
Talvez nos vejamos melhor nas sombras.

P.S – 2 Luz, luz, menos luz, soprou Goethe agora no cangote desta nega que anda deslumbrada e que atende também pelo nome de Cidade da Bahia.