Archive for dezembro \15\UTC 2005

O Ingresia Respeita (o filho de) Januário

J f, 2005

Ainda era minino pequeno, coisa de sete, oito anos, quando me tornei devoto. Quem me apresentou ao Salvador foi meu pai. Aconteceu algo tipo o estalo de Vieira. Não sei explicar com mais detalhes. Só sei que foi assim. E, depois daquela conversão sob o céu que me protegia (e castigava) no semi-árido, nunca mais me desviei do sagrado caminho. É óbvio que, de lá pra cá, desocupado como é, o Cão já atentou diversas vezes, prometendo insinuantes estradas de perdições às minhas velhas e desbotadas alpercatas. Mas, firmes e religiosas pisadas não saem da rota por seduções vãs. Questão de fé.

Calma, minha senhora, toda esta ladainha nostálgica e metida a lírica é por uma boa causa: no último dia 13 de dezembro, entramos no ano da graça 93 DLG (Depois de Luiz Gonzaga). E datas santas existem para serem respeitadas. O Velho Lua completou mais um ano de vida e… Ei, ei, pare. Vira esta boca pra a maré de vazante, incréu. Quem morreu foi Elvis, o irmão bastardo de Gonzagão no Mississippi.

Mas, já que descambei para as bandas do estrangeiro, lembrei-me agora de mais uma coisa que ia falar: a apropriação indébita do Forró pelos ingleses. Poizé. Para tomar as coisas dos outros, os imperialistas inventam as versões mais fantasiosas – vide aquela conversa fiada de que a palavra mágica surgiu quando os engenheiros britânicos estavam construindo a ferrovia Great Western e realizavam folias For All e etc e coisa e tal.

Nero ar.

O velho Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, já ensinou: Forró vem de forrobodó, que os escravos africanos usavam para tratar das festas populares nas quais se dançava diumtudo, como diria os xibungos de hoje em dia. Oxente, debraê, motô. Não deixarei que os baitolas mudem o rumo desta prosa ruim. O fato é que Forró é sinônimo de baile ordinário, sem etiqueta. Só não venha pra cá com estes peitos moles regionalistas porque nesta Ingresia não cabe louvação às imutáveis raízes ou a purismos bobos. O Forró não é inglês, mas é universal.

E, na verdade, na verdade (cacoete muito usado pelos advogados quando vão começar a mentir), escrevi todas estas bobagens acima apenas como um preâmbulo (longo, muito longo, é vero) para tentar salvar os pecadores que ainda estão na escuridão. Portanto, passem no linque www.gonzagao.com.br/multimidia.php e cliquem em cima de Forró de Mané Vito, primeira música da história do Brasil, gravada em 1949, na qual aparece a palavra Forró.

E mais não digo porque isto aqui não é o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nem o Correio Repórter. Agora, adiante o lado e vá ouvir logo os sons e as palavras de Gonzagão, que salvam e libertam. Garantia certa de lugar no céu. Bote fé.

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O Samba É Doce

J f, 2005
 
Apesar de Vinícius e Baden terem decretado que é preciso um bocado de tristeza, o Dia do Samba* já faz parte, desde priscas eras, de meu calendário de divertimento.

E ontem não foi diferente.

Os personagens da Velha Bahia, intelectuais frustrados, putas, ambulantes, bêbados, corações suburbanos e desocupados de uma forma geral sempre batem ponto. É vero que sem o romantismo de outrora, para desespero, lamento e ranger de dentes dos saudosistas. Mas, como bem disse o nobre sambista, Meu Tempo é Hoje. Ou melhor, foi ontem.

Uma noite de júbilo em que, novamente, foi dado o privilégio às gentes que não têm vergonha de ir ao Centro Histórico de Salvador (apesar dos pesares) de ver e ouvir baianos do calibre de Nelson Rufino, Claudete Macedo, Paulinho Camafeu e do bamba Walmir Lima, entre outros mais e menos cotados. Além disso, haviam forasteiros da mais alta dignidade. Os convidados, aliás, merecem um capítulo à parte (que não contarei agora), assim como o apresentador do espetáculo.

Já passavam das 23h, e Paulo César Pinheiro, que fez uma exibição honesta, ainda nem saíra do palco, quando o apresentador Paulinho Cacá, cheio de chinfra, largou a seguinte: “Que felicidade! Que felicidade! O ex-marido de Clara Nunes e atual de Luciana Rabelo, um dos maiorais, está na cidade. Mas, bom mesmo é o que vem agora, o grande sambista (sic) Francis Hime, o que é uma raridade“. Com uma matéria do jornal Correio da Bahia na mão, o intrépido dirigia-se ao parceiro de Chico Buarque como se fora seu amigo de infância. E tome louvores. E lia a matéria: “Ele é autor de Vai Passar, Meu Caro Amigo, Trocando em Miúdos, de Embarcação, de Risque (sic). Êpa, não sabia que o Francis fazia músicas românticas e gostosas assim…“. Definitivamente, não havia como conter o riso.

E na hora dos comerciais, Paulinho Cacá, com o raciocínio ainda mais entorpecido por produtos etílicos, perde o papel com o nome dos anunciantes e solicita apoio. O outro sopra. “Prefeitura Municipal“. Como ele fala tudo rimado, larga mais esta. “É isso aí, o prefeito Imbassahy, aquele que soma para depois dividir“. Impagável.

Abre parênteses.
O tempo passa e uma pequena legião de mudernos fica mais impaciente, pois a nova musa deles, Elza Soares, não aparece. Claro que, para completar minha alegria, a ex-mulher de Garrincha não deu o ar da graça. A decepção dos mudernos me deixou ainda mais feliz. Fecha parênteses.

Volta a voz para nosso herói Paulinho Cacá. Ele segue mandando abraços para as mais diversas personalidades. “Vamos dar os parabéns ao grande sambista Ermelino, que completa 47 anos amanhã e já não é mais menino“, pediu o apresentador. Eu, que sou metido a gostar do desconhecido, e principalmente do desconhecido que não presta, busco ajuda nas memórias Ram, Rom e no banco de dados do lado esquerdo do cérebro, mas nada. Nada de Ermelino. Até que um amigo vem e fulmina. “Ermelino tá completando 47 anos, é? Tá bem crescidinho. Tá na hora de tomar vergonha e mudar de nome“. Só durepox para cessar de rir.

E a festa oficial se encerra, já na madrugada, com Dona Ivone Lara no comando. Eu prossigo atrás dos Carrinhos de Café, misturando altas doses de Paulinho da Viola com cachaça de procedência duvidosa.

Reconheço que, sem a ajuda de um pedaço de cocada que me foi gentilmente cedido por uma amiga, na base do “abra a boca e feche os olhos”, talvez a festa não fosse tão alegre. Talvez fosse, pois não é sempre que dependo de produtos que não têm no tabuleiro da baiana para me divertir. Pelo sim, pelo não…

O fato é que, mais uma vez, pude constatar uma máxima desta mesma minha amiga. “A Bahia é generosa em trilha sonora, cenário, personagens. A escassez é de cineasta“. Bingo!

Já são quase 17h do dia 3 e minha cabeça não deixa a cidade dormir. O pior, ou o melhor, é que, à meia-noite, tem Bule-Bule e seu samba chula e rural.

Ê Bahia de todos os sambas, sem governo, nem oposição. E Viva Leon Hirszman e Paulo Cezar Saraceni.

Ainda sambando, o mulato Franciel Cruz despede-se.

*Assim como o Samba, o dia em sua homenagem também nasceu na Bahia. A iniciativa foi do vereador Luís Monteiro da Costa. A escolha de 2/12 foi porque nesta data ocorreu a primeira visita de Ary Barroso à capital baiana. Conta a lenda que o primeiro Dia do Samba, no início da década de 70, teve um show antológico do ministro, que então voltava do exílio. Isto é o que garante Edil Pacheco, organizador do evento. Quem sou eu para duvidar de lendas.