Archive for outubro \25\UTC 2005

CADA UM ESCREVE (SOBRE E) DO MODO QUE GOSTA

J f, 2005

Sempre impliquei com dicionaristas – estes meninos criados com vó que, por falta do que fazer, ficam catalogando e aprisionando palavras. Sei que minha imperícia com o vernáculo é causada por diversos outros fatores, mas se escrevo tanto em português errado é por absoluta ausência de consulta ao “Pai dos Burros”.

(Se bem que o maior Erro de Português, conforme destacou Oswald de Andrade, foi chegar debaixo daquela bruta chuva e vestir o índio. Se fosse manhã de sol, o forasteiro não cometeria o equívoco. Ocorreria o inverso. Agora, porém, já é inútil chorar sobre as vestes dos nativos impostas pelos colonizadores).

Tá, cambada, este não é exatamente um assunto empolgante para iniciar a semana. Tanto sei disso que ia começar escrevendo sobre tema muito mais gostoso: buceta. Os dicionaristas entraram na ciranda por obra e graça do recém-contratado revisor do Ingresia. O novato estrilou quando leu a palavra mágica, e não foi exatamente por questão de ordem moral: “Na última edição do Aurélio Século XXI – o Dicionário da Língua Portuguesa – não existe buceta com u. O grande lexicógrafo só reconhece como sinônimo de vulva, e mesmo assim destacando ser expressão chula, a palavra boceta“, vociferou o cidadão, com ar de superioridade.

Mas, que caralho é este? Perguntei, respondendo. E acrescentei: Quem só sabe grafar boceta com ó realmente não tem devoção à causa.

Mas, enfim, como disse no título, que tomei emprestado de minha amiga Sora: cada um escreve (sobre e) do modo que gosta. E há quem admire boceta desta forma insossa, como Aurélio Buarque, que, confirmando minha tese, foi realmente um menino amarelo criado com vó, um parmalat, assim como todos os outros dicionaristas. Mas, deixemos os mortos em paz.

Cá, no Ingresia, a despeito do neófito revisor, continuarei a escrever buceta, linda assim, conforme a gostosa língua errada do povo, língua certa do povo, da qual falava Bandeira.

Anúncios