Archive for setembro \23\UTC 2005

SOY CUBA (e Dou Empate)

J f, 2005

E o cinema nada mais é do que cachoeira. Deve ter dinamismo, beleza, continuidade eterna
Humberto Mauro, em entrevista ao Jornal do Brasil, em abril de 1973 
E por falar em beleza, em razão de viver, você bem que podia esquecer tudo o que sabe sobre cinema e ir correndo assistir a Soy Cuba – primeira (super) produção cubano-soviética, filmada no início dos anos 60 por Mikhail Kalatozov.

Concebida para ser uma peça de propaganda do recém implantado regime castrista, a obra desagradou a soviéticos e cubanos. Para além do proselitismo político, havia (e há) cinema. Cinema que ficou nas geleiras do esquecimento por mais de 30 anos até que a fluidez, o frescor e o ritmo “cachoeirano” seduzissem Coppola e Scorsese no início dos anos 90.

As belas distorções das imagens em lentes grande-angulares, os closes e os inacreditáveis, longos e, por que não, revolucionários planos seqüências também encantaram um brasileiro. Vicente Ferraz reuniu depoimentos de vários atores que participaram das filmagens, fotos, inúmeras imagens de arquivo, uma enorme paixão pelo filme de Kalatozov e fez o documentário Soy Cuba, o Mamute Siberiano, premiado com o kikito de melhor filme no último festival de Gramado.

A homenagem de Ferraz está prevista para estrear em novembro. E eu recomendo. Ele dá pistas de como Kalatozov conseguiu as magníficas acrobacias com a câmara, apresenta material inédito e ainda ilumina algumas passagens do filme. Acho que vocês devem comparecer porque eu mesmo não piso meu pé lá. Quero continuar na escuridão. Ou melhor, desejo prosseguir sendo guiado apenas pela luz da fotografia de Sergei Urushevski, do documentário original.

Antes que algum gaiato pergunte mais sobre o tema, saco a pistola/resposta certeira de Louis Armstrong que sempre trago escondida na cintura. Ao ser questionado sobre qual é a graça do jazz, ele largou a seguinte: Man, if you gotta ask, you’ll never know. (Se você tem que perguntar, não vai saber nunca). Portanto, nem peça para que eu discorra em 15 minutos sobre o porquê deste ser o melhor filme de todos os tempos da última semana.
Como bem gritou Janjão de Aratuípe, o representante do Ingresia no Oscar: “QUEM NÃO VIU, NÃO SABE NADA DE IMAGEM, QUER SEJA EM MOVIMENTO OU MESMO IMAGEM ESTÁTICA”.

É filme para ser visto no genuflexório (royalties para Setaro). E por falar em genuflexório, lembrei-me da seguinte passagem bíblica:”No reino do céu, é mais fácil entrar um careca do que alguém que nunca assistiu a Soy Cuba“.
Deus sabe das coisas do cinema.

P.S As imagens de Soy Cuba são tão espetaculares, mas tão espetaculares, que você acaba esquecendo o discurso, no qual prevalece o primarismo político.
Ah, sim, onde ver esta declaração de amor à ilha? Janjão de Aratuípe tem uma cópia e está disposto a abrir (lá ele) sua (lá dele) residência para uma apresentação especial.

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Bonita Camisa, Fernandinho ?

J f, 2005

Nos últimos dias vi todo tipo de lero a respeito da saga de Severino. Os mais hereges chegaram mesmo a invocar o nome de João Cabral. Em vão. Esta mulequeira não está pra prosa, muito menos para poesia. O personagem não merece tinta literária – é o que há de pior na direita católica brasileira (se é que na direita católica tenha algo que já não seja o de pior).

Legítimo representante do preconceito e da burrice, do patrimonialismo e do ultraje à inteligência, o atual presidente da Câmara dos Deputados usa um figurino ultrapassado, que já saiu de moda faz tempo.

Já do outro lado da passarela, desfila Gabeira, seu antagonista de plantão, que continua se vestindo de acordo com as últimas tendências. Estes opostos, no entanto, como quase tudo no mundo fashion, são apenas aparências. Nada mais. Dou um pelo outro e não quero troca.

Câmera e flash nos olhos dele.

O muderno deputado verde tornou-se o novo herói nacional exatamente por pregar contra a indumentária arcaica do pernambucano. Porém, há tempos, Gabeira tem usado um modelito para agradar às excrescências que mandam no país e, assim, ouvir aquela famosa frase: “Bonita camisa, Fernandinho!”.

Na última eleição à prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo, Gabeira apoiou César Maia, aquele fanático pelas vestimentas do Terceiro Reich e incentivador do uso de creolina para os descamisados que habitam as ruas da cidade maravilhosa.

Os estilistas radicais daqui do Conselho Editorial desta Emissora acham que quem vota no referido alcaide, um conhecido apreciador de roupas ultrapassadas, não pode reclamar dos modelitos alheios. Eles lembram também que, desde a época da sunga de lycra, Gabeira muda de roupa como quem muda de opinião. Ou vice-versa.

Apoiou a reeleição de FHC e depois fez autocrítica. Trocou de roupa e foi para Lula, professando uma nova fé em um modelito pretensamente popular. Dizem as más línguas do mundinho que ele só optou pelos trajes do PT porque não tinha votos para se eleger em outra legenda, sendo, inclusive, o menos votado entre os eleitos.

Como é um inovador, não pára quieto. Abandonou o vermelho, que saiu de moda, vestiu uma camisa listrada para conspirar com estadistas do porte de Jorge Bornhausen e saiu por aí dizendo que tá fazendo História.

E eu, que não tenho nada a ver com esta ingresia modística, pergunto: é este cidadão malamanhado que agora quer orientar com que roupa nós vamos?

Que traje horrível, Fernandinho!

P.S Lembrei-me que a onda atual é fazer roupa de cânhamo. Lembrei-me também que uma das poucas coisas que não gosto na maconha é o seu uso eleitoral. Ajuda a eleger tanto Gabeira como seu opositor. Este sendo contra, o outro fazendo apologia da erva. Bichos escrotos. Ambos.