Archive for agosto \30\UTC 2005

As Invasões Bárbaras

J f, 2005

No início dos anos 70, alguns bárbaros nordestinos invadiram a nem tão civilizada música brasileira. No matulão, os paus-de-araras traziam xote, maracatu, toada, baião, forró, embolada, entre outros ritmos sacolejantes. Porém, às violas dos repentistas, às safonas, zabumbas e triângulos, que os encantaram na infância, estes herdeiros de Gonzagão, Jackson do Pandeiro e João do Vale incorporaram as guitarras elétricas, que os inebriaram na adolescência. E deixaram, com variações na tinta, boa impressão digital no cancioneiro popular de Pindorama.

O marco desta ascenção sertânica, para mim, é ano de 1973, quando Ednardo, Rodger de Rogério e Téti (que na época assinava Tetty) lançaram o LP Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem – Pessoal do Ceará.

As excelências que habitam a caixa de comentários podem até argumentar que, na época, Fagner já tinha três rebentos na praça (o compacto simples com Cirino, em 1971, um duplo, em 1972, e uma música no disco de bolso do Pasquim, também em 1972 ); que Alceu Valença e Geraldo Azevedo estavam no mercado com Quadrafônico; que Jorge Mello era autor de um compacto duplo e que, junto com Fagner, Belchior arrebatara o 1º lugar em um Festival de Brasília com Mucuripe, em 1971, gravada por Elis no ano seguinte.

Tudo bem. Tá tudo certo, mas agradeço a vossa argumentação, pois entendo que foi a partir do referido disco que os outros artistas se consolidaram. Ainda em 1973, por exemplo, Fagner lançaria Fru Fru Manera e, principalmente, Orós (1977); Belchior faria A Palo Seco (1974) e, especialmente, Alucinação (1976); Alceu com Molhado de Suor (1974), Vivo (1976) e Espelho Cristalinho (1977) firmava a nova identidade da música nordestina, que se completaria neste mesmo ano de 77 com Zé Ramalho lançando seu primeiro disco solo(com Bezerra da Silva na Zabumba). E o bruxo confirmaria seus poderes em 1979, com A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. (Sei que meu amigo Zezão é capaz de dizer que tudo começa com a psicodelia de Paêbiru, de 1975, mas fazer o quê?).

Pois bem. O disco do Trio Cearense tem ainda alguns aspectos, digamos, simbólicos, que o colocam como o marco. Além de belas composições, a exemplo de Terral (“Eu venho das dunas brancas”), Ingazeiras (“O sul, a sorte, a estrada me seduz”) e Cavalo Ferro, o LP traz, pela primeira vez, a noção de Movimento. E traz também outra marca que acompanha os movimentos: o esquecimento. Quem ainda pode ouvir Téti, uma das mais lindas vozes brasileiras, que no LP entoa aquela beleza de Humberto Teixeira, Dono dos Teus Olhos?

E a lista dos olvidados cada vez aumenta mais. Dela, constam os excelentes letristas e irmãos piauíenses Clodo, Clésio e Climério; os também (bons) compositores Petrúcio Maia, Manassés e Ricardo Bezerra, além da ala feminina encabeçada por Tânia Cabral e secundada por Alba Paiva, Olga Paiva, Ieda Estergilda de Abreu, Marly Vasconcelos, Xica, Dodora Guimarães. Isso para não falar em Amelinha, que faz tempo não tenho notícias. Mas, como diria o cantor popular, são só lembranças. O que sobrevive é uma caricata Elba Ramalho, que atualmente faz por merecer o condinome de “perua do agreste”…

Um parágrafo para a Bahia.
(Sêo Franciel, no tal início dos anos 70 não se deveria incluir também os Novos Baianos como bárbaros invasores? Deveria, se a Bahia se considerasse Nordeste. Mas, quá. O único que talvez merecesse a citação, até pela temática e viagens medievais, seria Elomar. Mas este fica fora, porque gênio).

Acabo aqui com as divagações para informar aos prezados o destino de nossos heróis. Há cerca de 10 anos, li algo mais ou menos assim: “Daquele pessoal, Fagner está fazendo música medíocre; Ednardo e Belchior, música mediana, e Zé Ramalho foi o único que não mudou: continua na sintonia da canção mediúnica”.

Eis uma verdade que, mais uma vez, pude comprovar na última sexta-feira. Para uma Concha Acústica completamente lotada, o bardo trovador de voz cavernosa, aparência messiânica e letras apocalípticas reafirmou sua profissão de fé no sobrenatural.
O show em si, que continha praticamente as mesmas canções da década de 70, teve um pouco mais de vigor que da última vez. Porém, o melhor (ou pior) estava do lado de fora, na Ladeira da Fonte. Uma legião de deserdados raulseixistas, que não tinha dinheiro para dar aos felas dos cambistas, desesperavam-se por não poder ver o mito.
É isso. Os órfãos de Raul seguem agora a cartilha psicodélica-alucinógena de Zé, que, apesar de místico, não é besta. Não é à toa que em 2001 ele lançou o CD Zé Ramalho Canta Raul – um disco horrível -, em que a imagem de um se funde com a do outro. Coisas de outro mundo. Mistééérios.

E no mais? Só a constatação de que os meninos que, há trinta anos, queriam mudar o mundo tornaram-se uns velhinhos inofensivos, como os personagens de Denys Arcand.

P.S Ao contrário de Los Hermanos e quetais, há mais de uma década eu já havia desistido de Belchior. Mas, atendendo a pedidos, no Sábado fui completar minha sessão nostalgia. E não é que o bigodudo está rejuvenescido, principalmente por conta de um demoniozinho do violão chamado Diego Figueiredo, que toca tanto quanto Yamandú Costa.

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Uma Trilogia Raulseixista (Parte 1)

J f, 2005

Esta gritaria dos seiscentos me desorientou. Agora, já não sei mais se os ensinamentos que desejo reproduzir estão em Mateus 14:6,8 ou em Isaías 25:12,13.

Não importa.

O fato é que tá na Bíblia: “Irmãos, não vos inquieteis, pois, com vossos pecados. Deus, generoso em sua imensa misericórdia, perdoa quase tudo. O único erro que o Criador não admite é a leitura semanal da Revista Veja“. Palavras da salvação.

Cristão ortodoxo, de rígida formação, sigo religiosamente as orientações acima. De quando em vez, entrego-me a alguns outros pecados, porém sempre nos limites estabelecidos pelo Nosso Senhor. Não me atrevo, porém, à desobediência fatal:, ler a Revista dos Civitas. Ou melhor, não me atrevia.

Não é que o Satanás atentou e eu, com a vaga no céu praticamente garantida, fui desleixado. Há cerca de um mês, depois de alguns entreveros com um conhecido sobre Raul Seixas, cometi a heresia: passei as vistas em uma matéria da referida sobre o referido.

Ó maldição! Olho para o céu e suplico: Perdoa-me, ó, pai!

Enquanto a piedade não chega, vejam abaixo porque diabos eu fui sujar meu cadastro junto ao Genitor Celestial.

Em mais uma de suas reportagens bombásticas, a Veja me surpreendeu. Pra pior. Muito pior do que eu pensava. A reportagem começa fazendo a seguinte revelação: “Entre 68 e 72 Raul era um compositor…(as reticências são de lá ele mesmo) brega“.

Mas, a marcha da insensatez prossegue. Logo em seguida o jornalista cretino (desculpe a redundância) larga mais esta. “Na CBS, o músico compôs hits para figuras tão obscuras quanto Waldir Serrão“.

Ora, ora, ora e ora. Me faça um caldo de cana contaminado. Só mesmo uma publicação demente, desinformada ou de má-fé (e talvez no caso os três adjetivos juntos) para se “surpreender” com tais fatos. Na verdade, a Revista pretende “desmistificar” Raul.

Quá, quará, quá quá, quem riu? Nem eu. Como diria Raulzito, “vê se eu güento uma zorra dessa“.

Porém, ai, porém, existe coisa muito pior na velha Bahia. E não são os fãs e outros bichos raulseixistas alucinados que despecam com seus violões rumo ao Cemitério da Saudade nos tradicionais 28 de junho e 21 de agosto. É algo bem mais tenebroso. Mas, este é o assunto do 2º Capítulo.

P.S Ah, sim. Quem quiser carimbar o passaporte para o inferno clique no linque da “matéria” da Veja. Ei-lo http://aorui.webhostme.com/raul_seixas/entrevistas/opasquim.htm