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Eu e Hildegard. Hildergardes e eu

J f, 2005

A ex-imortal Hildegardes Viana bateu as botas na manhã de ontem, vítima de um acidente vascular cerebral. Nem bem esquentou o caixão e ela já está se revirando no túmulo.

Estudiosa do folclore, uma das coisas que mais prezava era a seguinte máxima popular: “Mate o homem, mas não mude seu nome”. Pois o diabo do AVC matou a professora e os meninos do A Tarde On Line e do Ibahia fizeram exatamente isso http://www.atarde.com.br/plantao/index.php?id_plantao=174205&url=/local/index.php&dt_exibicao=2005-06-
e mais isso http://ibahia.globo.com/plantao/noticia/default.asp?id_noticia=103521.

Um amigo que passou agora pelo Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco, na Quinta dos Lázaros, onde ela está enterrada, contou-me que Dona Hildes bradava coisas terríveis, impublicáveis, contra estes dois jornais…

E por falar em saudade (alguém aí falou em saudade?), lembrei-me de um episódio ocorrido há cerca de 15 anos, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, com a professora Hildegardes Viana.

Metido a pesquisador de folclore e da cultura popular, lá vou eu rumo ao imponente prédio da Piedade ao encontro da guardiã das tradições baianas. Pressinto pelo olhar inquisidor da moça que não vou ser bem recebido.

Ela me olha de cima a baixo e questiona logo de saída. “Não tem mãe não, meu filho? Como é que anda com roupas deste tipo?”. (Devo confessar que não estava com trajes apropriados para o local. Justiça seja feita, não era indumentária para lugar nenhum – tradição que mantenho até os dias que correm).

Pois bem. Antes que eu tomasse fôlego para esboçar qualquer tipo de resposta, a velha dispara: “Este tipo de coisa parece ser uma tradição de tua faculdade, né? Vê o diretor (o poeta) Ruy (Espinheira), menino até inteligente, mas só se veste de forma abominável”.

Fiz ouvidos de mercador e puxei uma daquelas cadeiras da idade média para sentar, mesmo sem ser convidado. Neste instante, não tenho como fingir que não escutei o berro: “NÃO. NÃO. Não profane esta cadeira que é de…”. Nem quis ouvir o resto. A partir daquele momento, picuínha em pessoa, tomei a decisão de sacanear a pobre coitada.

Ligo o gravador e começo. “Dona Hildegard como a senho…”. Ela, no ato: “Hildegard, não. Meu nome é Hildegardes”. E eu, inocente, puro e besta: “Pois bem Dona Hildegard o que…”. “H- I- L- D- E- G- A- R- D- E- S. Meu nome é Hildegardes”, gritou ela para todo o Centro Histórico e adjacências.

Antes de prosseguir pirraçando-a, resolvo dar um tempo e chamá-la apenas de senhora. A civilidade se estabelece por instantes. Então, a pesquisadora engata uma conversa sonolenta e começa a falar sobre o assessor do subsecretário que revitalizou os pastoris e os ternos de reis da Lapinha no ano 2.368 Antes de Cristo. Não resisto. E digo: “Homem erudito e sensível, né, dona Hildegard?”.

Educadamente, mas sem motivo ou razão aparentes como vocês podem notar, ela me convida a sair do recinto.

Posso procurar a fita com estes e outros diálogos de suma importância para a cultura popular nacional, que está jogada em algum canto de minha residência. Como sei que aqui há pessoas sérias e estudiosas, que gostam de história oral, proponho o seguinte: mexam no bolso e paguem-me algumas doses que repasso a maldita fita.

Uma troca justa. Que tal?

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