Archive for maio \26\UTC 2005

Canalhas e Fantasmas

J f, 2005

CANALHAS E FANTASMAS

Um espectro ronda de forma indelével a inteligentzia tropical – o espectro de Glauber Rocha. Desde que Dona Lúcia o pariu em Vitória da Conquista há pouco mais de 66 anos, no 14 de março de 1939, ele não pára de assombrar. Mas, sua figura fantasmagórica tornou-se mesmo insuportável depois de 22 de agosto de 1981, quando ele bateu as botas em um hospital do Rio de Janeiro. Definitivamente, este é um dia que nunca termina.

A partir de então, é só choro e ranger de dentes. Viúvas verdadeiras, falsas e outras maizomenos protagonizam uma ladainha sem fim. Agora mesmo o cineasta entrou novamente na roda pelas mãos de Silvio Tendler com Glauber O Filme, Labirinto do Brasil.

Tento até ser compreensivo, mas meu maltratado saco transborda quando se descamba para o inevitável: “O que Glauber faria se estivesse vivo diante de…?”. Caralho! Mandaria às favas os problemas de consciência, os culhões de Cristo, estas indagações impertinentes e continuaria com sua trajetória de loucas profecias e incoerências, ora… ou não? Como diria a vedete santamarense.

Por falar nela, outro dia, em uma de suas chatas, inúteis e intermináveis polêmicas, contou que Glauber lhe confessara: “Meu candidato a presidente é ACM”. Eta carai de asa! Viva a macumba transcendental! Aliás, nos apaixonados debates sobre arte, polititica, revolução e outros bichos afins, tão comuns em sua época, o conquistense guiava-se pela máxima atribuída erroneamente ao lírico Mário Quintana: “Que fique mal explicado. Não faço força para ser entendido. Quem faz sentido é o soldado”.

E já que estamos no campo dos devaneios, Terra em Transe. O filme é, com perdão da má palavra, um oxímoro. Nele, Glauber expõe todas as suas dores, contradições e esperanças a partir de uma representação atemporal dos desmantelos e (im) possibilidades das grandezas (e pequenezas) de Pindorama. À parte eu apreciar muito os gritos lancinantes das óperas místicas de literatura de cordel e faroeste que são Deus e o Diabo e o Santo Guerreiro, acho Terra em Transe superior. E nem vou entrar nesta polêmica específica. É apenas minha mísera opinião.

Aliás, nem era só de Glauber que eu queria tratar quando comecei a digitar estas mal traçadas. Desejava também falar sobre o retrato do artista quando (se transforma em) canalha. Não, cambada, não é Glauber, mas sim Fagner.

E onde é que a Bahia faz fronteira com o Ceará?

Seguinte. Outro dia um amigo me contou que o Raimundo, nome que serviria para a rima drumondiana, transava nas escadarias do hospital em que o filho de Dona Lúcia padecia. Pensei: taí um cabra que era, novamente com o perdão da má palavra, tão iconoclasta quanto o Dragão da Maldade. Um homem que botava pra fuder, literalmente, que estreou em LP já furtando Cecília Meireles.

Porém, para além do amor ao alheio, Manera Fru Fru, Manera ou o Último Pau-de-Arara é uma pequena obra-prima. Entre outras malcriações, cometeu Orós, um disco absurdamente inquietante, com o auxílio luxuoso do bruxo Hermeto; no intermezzo, ainda gravou o bolachão que contém o biscoito finíssimo Sinal Fechado; produziu e incentivou artistas novos; apoiou talentos; jogou bola com Chico Buarque e… comeu gente na escada de hospital. Enfim, fez misera.

Depois, todo o mundo já sabe o processo de vergonhosa patifaria a que este se submeteu. Abstenho-me de comentar. Só uma surra de cansanção e urtiga neste moleque, que hoje é filiado ao PSDB do Ceará e faz canções mela-cueca.Tá tudo bem, tudo muito certo, mas cadê a moral da história? Sim, porque toda a fábula tem que ter uma. Se todos assim o fazem, não seria eu que desta lei da natureza deveria ter isenção. Vamos lá.

FANTASMAS: Gênios que morrem antes do tempo, como convém aos de boa cepa, e ficam perturbando mentes, corações e provocando desmantelos nos intestinos.

CANALHAS: Nós outros, gênios ou imbecis, que permanecemos vivos.

Franciel Cruz, o canalhinha-camarada.

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Comunicado Fundamental

J f, 2005

Agora são exatamente 17h02 minutos na Capital Baiana. Antes, portanto, um pouco do previsto e esperado, o Ingresia fecha as portas. É fato lamentável. Mas a vida, querida, não é nenhum mar de rosas.

Como diria o sociológo Bell Marques: fazer o quê, cidadão?

Na despedida, deixo com vocês umas mal traçadas sobre Armando Oliveira. Foram escritas em 16 de janeiro, dia em que ele se cansou e caiu fora. Talvez alguns que visitaram esta joça nestes dias nunca nem tenham ouvido falar dele. E, provavelmente, as mal digitadas que vão abaixo não façam justiça ao talento do cronista . Paciência.

Bem ou mal, o fato é que vocês poderão saber um pouco mais sobre um de meus poucos ídolos futebolísticos – uma avis rara neste lodaçal. Um profeta do indizível, que tinha um zelo extremo pela ética. Um homem que, como bem disse um amigo, não traz saudade de tempo algum, pois aqui, na crônica esportiva da Bahia, jamais existiu alguém que dialogasse com ele. Não e à toa que morreu sem deixar sucessor.

Abraços a todos e bom final de semana.


Ar-man-do Oliveeeira

Logo após esta chamada acima, os devotos do Nosso Senhor Futebol Clube na Bahia costumavam se ajeitar na poltrona para ouvir “o comentário abalizado do número 1 do Brasil“, que começava sempre com o indefectível “meus amigos“. A partir de então (desculpem-me, mas o chavão é inevitável), iniciava-se mais uma aula sobre a arte futebolística.

Apesar de extremamente lúcido, quase cartesiano, o heptacampeão da Bola de Ouro guiava-se pela sábia e emocional sentença de Bill Shankly, técnico e escritor escocês: “O futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais importante que isso“.

Armando falava sempre com difícil e desconcertante simplicidade, como só o fazem os grandes conhecedores.

Nunca houve na história do rádio da Bahia, e quiçá do Brasil, alguém com tanta intimidade para tratar dos acontecimentos nas quatro linhas. Possuia os segredos da clarividência. Em pouco menos de 15 minutos, era capaz de elaborar raciocínios cristalinos e convincentes sobre este algo tão inexato que é uma peleja de futebol. Sabia ver o jogo como ninguém, pois conhecia as manhas e tretas dos jogadores e técnicos. E dava pitos com uma elegância incomum, principalmente na cartolagem – esta raça de gente ruim.

Ao contrário dos cientistas da bola que, a cada quatro anos, em época de Copa do Mundo, escrevem tratados antropológicos sobre a paixão nacional, Armando gostava de se ater à dramática batalha dos 90 minutos e das prorrogações diariamente. Mesmo extremamente inteligente, não era dado a estas firulas pseudo-intelectuais. Assim, para além de filosofices, fazia-se entender por qualquer um que verdadeiramente gostasse do esporte bretão.

Além disso, em que pese trabalhar neste mar de lama que é o futebol brasileiro, jamais se deixou cooptar pelo vil metal. Por tratar o futebol sem mistérios ou firulas, nunca se envolveu nos negócios, digamos, enigmáticos, que tanto encantam os coleguinhas de profissão. O único mistério do qual se aproximava, e desvendava, era aquele relativo à disputa em campo.O ex-torcedor do Colo-Colo de Ilhéus também escrevia com correção. Tem textos deliciosos sobre a cidade do Salvador e seus personagens. A saga do clã do bairro de Massaranduba é um bom exemplo. (Vide texto abaixo). É uma pena, porém, que não conseguisse, nas crônicas esportivas, traduzir para o papel sua verve do rádio. Paciência! Cada um é para o que nasce. E ele nasceu para ensinar futebol através das ondas radiofônicas ou da televisão. Era um homem da palavra falada no futebol.

E de palavra.

Vítima de um câncer, decidiu, depois de ser destroçado por sessões de quimioterapia, que não mais faria o tratamento. “Vai morrer com a mesma dignidade com que viveu“, confidenciou-me uma amiga, que privava da intimidade de Armando.

E assim foi.

Armando Oliveira, que não deixou sucessores, saiu de cena dignamente. Partiu um tanto quanto constrangido e indignado com a patifaria reinante no futebol baiano.

Fim de jogo.

Prorrogação: Em meados do último Campeonato Brasileiro, de triste memória, o atacante Obina deu uma entrevista reclamando que não balançava mais as redes “por encosto, trabalho da vizinhança“. O locutor Sílvio Mendes perguntou a Armando se não seria um caso para o “departamento psicológico do Vitória“. O comentarista, com sua habitual sabedoria e sarcasmo, sentenciou: “Nada de psicólogo, Sílvio. Vai confundir ainda mais a cabeça do rapaz. Deixa do jeito que tá. Ou então, convoque-se um pai-de-santo“.

Amém.


Ah, sim. Ia me esquecendo. Segunda-feira a Budega volta a funcionar. É que, religioso, guardo os sábados e domingos para orações.

Uma Honrosa Exceção

J f, 2005
Há três dias, ao decidir abondonar os ensinamentos do velho Pierre-Joseph Proudhon e aderir à propriedade privada, ainda que virtual, resolvi radicalizar. Este meu terreno sagrado foi logo cercado com arame farpado, proibindo terminantemente a ação de invasores. Um espaço inviolável.
Portanto, camaradas (é, larguei o comunismo como ruim há 48 anos, mas ainda continuo com os horríveis cacoetes), aqui vocês lerão todos os tipos de bestagens, mas todos de minha própria autonomia, como diria o sábio. Nesta página ninguém vai ver poesias, crônicas, letras de músicas e outras chibanças alheias que pululam nos blogs da vida. No Ingresia não entra nada disso.
Hoje, porém, é aniversário do Senhor Oliveira, que há exatos 69 anos nasceu Armando da Costa Oliveira, em Água Preta, atualmente chamada de Uruçuca.
Por conta da importância do personagem, o Ingresia abre uma honrosa exceção.
Em um oferecimento do Armazém Paraíba, “que faz sucesso em qualquer lugar”, leia abaixo uma crônica feita por Armando por ocasião do Congresso de Reabertura da UNE, realizado em Salvador, em 1979. Chega de lero e entreguemos a palavra a quem conhece do ramo.
Com vocês,
O BOM PROVEITO NO CONGRESSO ESTUDANTIL
Por Armando Oliveira (em 3 de junho de 1979)
Sendo de graça, Antônio Bispo comparece até a enterro.
Também, pudera, desocupado profissional, com inúmeros flagrantes de vadiagem, ele dispõe de todas as horas do dia e da noite, ao contrário dessa gente que vive pelaí escravizada aos livros de ponto, relógios automáticos e instrumentos coercitivos similares.

 

Vai daí, ao saber que se iria realizar o Congresso da UNE, ele ficou tão alvoroçado que despertou sérias desconfianças em Dona Miúda. E teve que gastar muita saliva pra convencê-la que o dito congresso era coisa séria, embora seu interesse em dele participar tivesse motivos eminentemente pragmáticos: um misto de expectativa pela possível boca livre e o desejo de curtir um divertimento gratuito.
Ônibus a migué, mandou-se para o Centro de Convenções e de lá só saiu no cisco, deixando a comadre com um pé na frente e outro atrás.
Retornando ao Solar Massarandubano, submeteu-se ao inevitável interrogatório.
É, quase não volta, parece que a farra foi boa!
Farra o que, comadre, nem cerveja tinha, uma secura danada!
Então, na certa tava assim de mulher! Eu te conheço, eu te conheço…
Bem, mulher tinha mesmo, mas tudo de óculos mal ajambrado, ninguém usava um cheiro, nada…
Mesmo assim, você quase não voltava.
É que mesmo sem a festança que eu esperava, deu pra safar a onça na parte da comida.
Como, se você não levou um tostão no bolso?
Tinha uns barbudões lá que pagavam tudo pra mim: refrigerantes, sanduíche. Um dia comi até galinha…
Essa não, compadre, onde já se viu neguinho dar boa vida a malandro que nem conhece!
Pra senhora ver! Tudo começou quando um me perguntou se eu era “homem do campo”. Ora, como eu não perco jogo na Fonte Nova, principalmente BA x VI, eu disse que era, sim. Foi o maior sucesso. Tudo mundo brigava pra pagar meus lanches e teve um que queria porque queria, que eu fosse lá em cima fazer discurso!
Misericórdia!!!
Por sorte, a confusão era tanta, todo mundo querendo discursar ao mesmo tempo, que eu escapei dessa fria!
Discursando o que, homem de deus?
Sei lá, comadre, nunca vi um povo falar tão difícil. Parecia até aquelas entrevistas que o presidente da Federação dá no rádio…
Mas não teve uma dança, um coquetel, um churrasco, nada?
Qualé, comadre! Era só converseiro, discussão, uns aplaudindo, outros dando vaia, só a senhora vendo!
Bem, acho que com meu diploma do Mobral, eu tinha mais direito de ter ido lá do que você, um analfabeto de pai e mãe!
Peraí, comadre, também não precisa engrossar!
Se você não entendia nada, o que é que ficou fazendo lá?
Eu ajudava a bater palma, a vaiar, dependendo do que os barbudões, aqueles que pagaram tudo pra mim, puxassem…
Por sua cabeça, você não fez nada?
Olhe, pra falar a verdade, teve duas vezes em que eu vaiei sozinho e os barbudões ficaram me olhando meio atravessado…
Quais foram?
Na primeira, o mangangão lá em cima disse que ia “iniciar os trabalhos”. Como trabalho não faz meu gênero, soltei o maior fiufiu, foi um vexame!
E a outra?
Foi quando uns caras começaram a fazer um coro de “Vitória, Vitória, Vitória!”. Achei que era um deboche com o Tricolor de Aço e berrei um palavrão. Quase entro no pau!
Afinal, você gostou ou não gostou?
Pelo preço, tudo bem! Agora, só não entendi o que uma turma tão desunida seja a favor de um negócio chamado UNE!