No início dos anos 70, alguns bárbaros nordestinos invadiram a nem tão civilizada música brasileira. No matulão, os paus-de-araras traziam xote, maracatu, toada, baião, forró, embolada, entre outros ritmos sacolejantes. Porém, às violas dos repentistas, às safonas, zabumbas e triângulos, que os encantaram na infância, estes herdeiros de Gonzagão, Jackson do Pandeiro e João do Vale incorporaram as guitarras elétricas, que os inebriaram na adolescência. E deixaram, com variações na tinta, boa impressão digital no cancioneiro popular de Pindorama.
O marco desta ascenção sertânica, para mim, é ano de 1973, quando Ednardo, Rodger de Rogério e Téti (que na época assinava Tetty) lançaram o LP Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem – Pessoal do Ceará.
As excelências que habitam a caixa de comentários podem até argumentar que, na época, Fagner já tinha três rebentos na praça (o compacto simples com Cirino, em 1971, um duplo, em 1972, e uma música no disco de bolso do Pasquim, também em 1972 ); que Alceu Valença e Geraldo Azevedo estavam no mercado com Quadrafônico; que Jorge Mello era autor de um compacto duplo e que, junto com Fagner, Belchior arrebatara o 1º lugar em um Festival de Brasília com Mucuripe, em 1971, gravada por Elis no ano seguinte.
Tudo bem. Tá tudo certo, mas agradeço a vossa argumentação, pois entendo que foi a partir do referido disco que os outros artistas se consolidaram. Ainda em 1973, por exemplo, Fagner lançaria Fru Fru Manera e, principalmente, Orós (1977); Belchior faria A Palo Seco (1974) e, especialmente, Alucinação (1976); Alceu com Molhado de Suor (1974), Vivo (1976) e Espelho Cristalinho (1977) firmava a nova identidade da música nordestina, que se completaria neste mesmo ano de 77 com Zé Ramalho lançando seu primeiro disco solo(com Bezerra da Silva na Zabumba). E o bruxo confirmaria seus poderes em 1979, com A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. (Sei que meu amigo Zezão é capaz de dizer que tudo começa com a psicodelia de Paêbiru, de 1975, mas fazer o quê?).
Pois bem. O disco do Trio Cearense tem ainda alguns aspectos, digamos, simbólicos, que o colocam como o marco. Além de belas composições, a exemplo de Terral (“Eu venho das dunas brancas”), Ingazeiras (“O sul, a sorte, a estrada me seduz”) e Cavalo Ferro, o LP traz, pela primeira vez, a noção de Movimento. E traz também outra marca que acompanha os movimentos: o esquecimento. Quem ainda pode ouvir Téti, uma das mais lindas vozes brasileiras, que no LP entoa aquela beleza de Humberto Teixeira, Dono dos Teus Olhos?
E a lista dos olvidados cada vez aumenta mais. Dela, constam os excelentes letristas e irmãos piauíenses Clodo, Clésio e Climério; os também (bons) compositores Petrúcio Maia, Manassés e Ricardo Bezerra, além da ala feminina encabeçada por Tânia Cabral e secundada por Alba Paiva, Olga Paiva, Ieda Estergilda de Abreu, Marly Vasconcelos, Xica, Dodora Guimarães. Isso para não falar em Amelinha, que faz tempo não tenho notícias. Mas, como diria o cantor popular, são só lembranças. O que sobrevive é uma caricata Elba Ramalho, que atualmente faz por merecer o condinome de “perua do agreste”…
Um parágrafo para a Bahia.
(Sêo Franciel, no tal início dos anos 70 não se deveria incluir também os Novos Baianos como bárbaros invasores? Deveria, se a Bahia se considerasse Nordeste. Mas, quá. O único que talvez merecesse a citação, até pela temática e viagens medievais, seria Elomar. Mas este fica fora, porque gênio).
Acabo aqui com as divagações para informar aos prezados o destino de nossos heróis. Há cerca de 10 anos, li algo mais ou menos assim: “Daquele pessoal, Fagner está fazendo música medíocre; Ednardo e Belchior, música mediana, e Zé Ramalho foi o único que não mudou: continua na sintonia da canção mediúnica”.
Eis uma verdade que, mais uma vez, pude comprovar na última sexta-feira. Para uma Concha Acústica completamente lotada, o bardo trovador de voz cavernosa, aparência messiânica e letras apocalípticas reafirmou sua profissão de fé no sobrenatural.
O show em si, que continha praticamente as mesmas canções da década de 70, teve um pouco mais de vigor que da última vez. Porém, o melhor (ou pior) estava do lado de fora, na Ladeira da Fonte. Uma legião de deserdados raulseixistas, que não tinha dinheiro para dar aos felas dos cambistas, desesperavam-se por não poder ver o mito.
É isso. Os órfãos de Raul seguem agora a cartilha psicodélica-alucinógena de Zé, que, apesar de místico, não é besta. Não é à toa que em 2001 ele lançou o CD Zé Ramalho Canta Raul – um disco horrível -, em que a imagem de um se funde com a do outro. Coisas de outro mundo. Mistééérios.
E no mais? Só a constatação de que os meninos que, há trinta anos, queriam mudar o mundo tornaram-se uns velhinhos inofensivos, como os personagens de Denys Arcand.
P.S Ao contrário de Los Hermanos e quetais, há mais de uma década eu já havia desistido de Belchior. Mas, atendendo a pedidos, no Sábado fui completar minha sessão nostalgia. E não é que o bigodudo está rejuvenescido, principalmente por conta de um demoniozinho do violão chamado Diego Figueiredo, que toca tanto quanto Yamandú Costa.
J f, 2005 às 12:47 pm |
Deixe de ser discarado que eu vi você se esbaldando no show de Zé Ramalho.
J f, 2005 às 1:13 pm |
Sêu Franciel,
Vá relevando o fato de não lhe ter escrito para abordar o seu derradeiro comentário sobre aquele menino que morreu de cana. Até porquê, teve um sujeito que pediu minha opinião e, como o sinhô sabe, seria demais descortês não atender ao chamado do distinto missivista dessa ingresia.
Sei também que teve outro sujeito que duvidou dos meus conhecimentos musicais e a este também carece uma replicação.
Conheço de música desde que o vlho Julião, meu finado avô, abatido por um coice que lhe machucou o gargomilo, não pode tocar sua clarineta na filarmônica do mestre Isaú Pinto. Passava-se o ano da graça de 1922 e eu, então garboso na flor da mocidade, aceitei o convite prá substituir o velho no concerto de comemoração do centenário da independência. Seria uma boa chance prá mirar as moças e prá usar meu terno novo, feito de linho S-120, que, segundo Ali Turco, tinha vindo direto da Inglaterra pro sertão baiano.
Aprendi as manhas do instrumento em menos de uma semana e me juntei ao resto da banda que se apresentou no coreto da Praça da Matriz da cidade de Rio de Contas.
De lá prá cá, não me separei mais da música.
Quando o Coronel Santinho comprou um Rádio Zenity e mandou ligar na budega de Sêu Gerônimo, não deixei jamais de acompanhar os artistas novos e suas músicas.
Por isso não estranhei quando começaram a chamar de música brega as músicas que a gente já escutava muito antes nas casas-de-moças.
Frank Gal, Osvaldo Bezerra, Carlos Alexandre, Jerry Adriani, Paulo Sérgio e aquele menino de Brumado, o Valdik Soriano, seguiram o prumo que há uns trinta e tantos anos todo mundo seguia: cantar as dores das pontas.
Assim foi com esse menino Raul Seixas, que era sucesso absoluto na Casa Verde de Dona Bela (lá de Itaberaba) ou do Bar de Zefa (lá no Alecrim, em Alagoinhas).
Quanto a dizer que a Bahia não é Nordeste, isso lá é verdade. Quando estudei a cartilha, lá no segundo livro estava escrito que nosso estado fazia parte da região Leste, juntamente com o Espírito Santo. Mas isso não empatou de aqui ter artista de espírito Nordestino, como é o caso daquela branquinha dos cabelão chamada Diana Pequeno, que vossa mercê esqueceu de citar.
Desculpe se me alonguei, mas tinha algumas verdades a serem ditas.
Cordialmente,
Manoel Feliciano da Paixão (o Caluca)
J f, 2005 às 2:18 pm |
Caluca pra crítico musical da Ingresia.
J f, 2005 às 5:25 pm |
Franciel,
Esse Caluca toma todo espaço dos comentários. Desse jeito fica difícil colaborar.
Mas valeu a lembrança de Diana Pequeno – “Haverá um homem no Céu e Deuses na Terra”.
J f, 2005 às 5:36 pm |
Seo Caluca, o senhor escreve muito bem, mas intimida um pouco os outros comentaristas deste blog com tanta verve e sagacidade. por que o senhor não cria um blog só para o senhor continuar nos espantando com toda a sua criatividade e conhecimento? não é que o senhor não deva comentar aqui, não, pelo contrário. mas é que eu percebo que o senhor tem potencial para muito mais do que continuar como mero comentarista do blog de Franciel. fica a sugestão. aquele abraço,
J f, 2005 às 6:46 pm |
Deixe de descaração, Humberto!!!
J f, 2005 às 6:50 pm |
que maneira mais sutil de mandar alguém se tocar chicão. Quanta classe! Também acho que o caluca, assim como o dono desse espaço, tem talento suficiente para criar seu próprio blog, até porque trata-se de um espaço para comentários e não tratados. Taí, gostei. Falta mais gente como você nesse mundo ingrisiástico do rock.
J f, 2005 às 3:44 am |
Yamandu Costa? Boa bosta!
J f, 2005 às 9:45 am |
Este Yamandu eu não conheço, não posso afirmar, mas bosta mesmo é um timinho que joga no lixão. Me dá o placar??
J f, 2005 às 10:54 am |
estou com o Costa.
sora
J f, 2005 às 11:22 am |
Entre yamandus e os times de merda desta linda Bahia, bosta mesmo foi o show de Zé Ramalho. E tenho que lhe defender, Franci! Não vi você se esbaldando, não! Vi você e sua senhora, muito sérios, dirigindo-se, certamente, ao bar para afogar às mágoas na cerveja estupidamente quente!
O outro Zé, com seu olhar observador de repórter investigativo da Av. Tancredo Neves, também estava muito sério por lá…
Viu que eu disse que esse show não prestou!!!!
J f, 2005 às 11:32 am |
Sugestão:
http://www.seucaluca.blogspot.com
J f, 2005 às 4:08 pm |
Obrigado pelos elogios e um beijo, Mocinha.
J f, 2005 às 7:08 pm |
Beijinho tb chicão.
J f, 2005 às 7:44 pm |
Páaaara. Tá tudo errado.
Primeiro pra Sora. Sora, Sora, não acerte seu relógio pelo de Costa Gravas, não, que ele é paranóico. Vê conspiração em todo canto. Sai desta lama, criatura. E vá escutar Yamandú, que é bom pra porra.
Segundo pra Paulo Maracajá. Aliás, não. Não vou responder, pois este nem merece consideração.
E, por último, pra Franchico e Mocinha. Aqui é um ambiente de respeito. Lugar de namoro é no Passeio Público.
E deixem Caluca, o fã de Diana Pequeno (arhg), escrever o quanto quiser.
Boas noites.
J f, 2005 às 12:46 am |
seu texto foi mediano!!!
melhore
sua cumade
J f, 2005 às 9:21 pm |
Franciel,
Tô atrasadaço (pra variar). Mas queria ainda assim dizer que sou seu fã. Não é boiolagem não, é admiração “desinteressada” mesmo. Gosto dos seus textos e gosto das suas referências! Eu acompanhei de perto todo este movimento do chamado “pessoal do ceará”. Morra de inveja: conheci Téti (meu pai cearense tinha sido colega de um dos letristas daquela turma) no show de lançamento daquele disco SORO (que é Orós ao contrário… dahnn!). Meu irmão era louco por Fagner e Belchior e eu escutava tudo por tabela. Eu adoro aquela fase deles. Acho Orós um dos discos mais bonitos da música popular brasileira. Enfim, fico contente de saber que vc, sendo parte desta turma dos blogs, não é tão fechado quanto tanta gente que eu encontro por aí.
Sim, o Rdger Rogério era marido da Téti e eu conheci o cara tb. Aliás, tinha o album (do SORO) todo autografado pela turma.
Um grande abraço,
luedy